Café moído registra alta de 0,54% em 12 meses; inflação desacelera, mas preços seguem elevados
Em um período de 12 meses, o preço do café moído apresentou uma alta de 0,54% para o consumidor brasileiro. Embora a inflação tenha desacelerado, os valores nas prateleiras dos supermercados continuam significativamente altos, pressionando o orçamento das famílias. A situação contrasta com a expectativa de uma safra recorde de café neste ano, que pode ajudar a aliviar a pressão inflacionária ao longo de 2026.
Preços históricos e impacto climático
Em 2020, o quilo do café tradicional torrado e moído custava, em média, R$ 16,45. No entanto, uma série de problemas climáticos entre 2021 e 2024, incluindo secas, calor intenso e geadas, afetou severamente as lavouras, derrubando a produção e elevando os preços. Atualmente, o mesmo produto é vendido por cerca de R$ 63,69 no varejo, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic).
No campo, o preço pago ao produtor pela saca de café começou a cair no início do ano passado, diante da expectativa de aumento da produção no Brasil e no mundo. Contudo, com a imposição de tarifas pelo então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, as cotações voltaram a subir em agosto, só recuando após a retirada das taxas em novembro.
Desaceleração da inflação e perspectivas futuras
Parte da desaceleração observada no campo já chegou ao consumidor, conforme comenta o analista do Safras & Mercado, Gil Barabach. A inflação do café moído vem caindo lentamente mês a mês desde julho de 2025, acumulando uma queda de 3,6% neste ano, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
"A continuidade da queda de preços nos próximos meses vai depender da recomposição da produção e dos estoques", afirma Barabach. "A promessa para este ano é de uma safra recorde, mas isso tem que se confirmar. Precisamos ver qual vai ser o tamanho efetivo da produção", acrescenta.
Na projeção do economista do Safras & Mercado, o Brasil deve colher 75,6 milhões de sacas de 60 quilos nesta temporada, expectativa alinhada com a do analista da StoneX Brasil, Fernando Maximiliano. "A safra desse ano vai trazer um aumento da disponibilidade de café no mercado brasileiro e isso tende a pressionar os preços para baixo", diz Maximiliano.
A previsão dos analistas é mais otimista do que a do governo federal. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deve colher 66,2 milhões de sacas este ano, representando uma alta de 17% em relação à temporada passada. A entidade atribui esse crescimento à bienalidade positiva, entrada de novas áreas em cultivo, avanço tecnológico no campo e condições climáticas mais favoráveis.
Retorno aos preços passados é improvável
Mesmo com a inflação do café em queda, os preços dificilmente devem retornar aos níveis de anos atrás, observa Barabach. "A volta a níveis mais baixos é um processo gradual, que vai depender da evolução da produção não apenas neste ano, mas também nos anos seguintes", afirma.
Segundo ele, não basta apenas o Brasil produzir bem. A recuperação dos estoques e a melhora no abastecimento precisam ocorrer em outros países produtores para que os preços caiam de forma consistente. Barabach ressalta ainda que, devido à inflação acumulada entre 2020 e 2026, o poder de compra da população diminuiu.
"Mesmo que o mercado se estabilize, é improvável que o preço volte exatamente ao mesmo patamar de seis anos atrás, já que os custos de produção e a economia como um todo operam em outro nível inflacionário", destaca.
Ameaças climáticas para as próximas safras
André Braz, economista do FGV Ibre, avalia que, mesmo com a expectativa de boa produção em 2026, problemas climáticos previstos para o segundo semestre podem prejudicar as colheitas nos anos seguintes. "A questão do café é que ele é uma cultura bianual. E a gente está sendo atropelado por fenômenos climáticos", diz Braz.
Ele explica que, até o início dos anos 2000, fenômenos como El Niño e La Niña ocorriam a cada sete ou oito anos, resultando em safras mais regulares e menos influenciadas pelo clima. De 2001 para cá, essa dinâmica mudou, com esses fenômenos aparecendo com mais frequência. Para 2026, a previsão é de um El Niño forte.
Um relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), publicado em 31 de março, aponta 80% de probabilidade de desenvolvimento de um El Niño no segundo semestre. Esse fenômeno, caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial, costuma provocar mais chuvas no Sul do Brasil e períodos de seca no Norte e Nordeste, além de aumentar a chance de temperaturas mais altas.
"Esse El Niño pode atrapalhar a safra de café porque ele altera o volume e a distribuição das chuvas. Então, em áreas onde tem que chover regularmente, às vezes, seca, faz calor extremo e o fruto não se desenvolve", comenta Braz.
Considerando que o plantio do café acontece no segundo semestre, período em que um clima equilibrado é essencial para o desenvolvimento da lavoura, Braz destaca: "Devido a essa expectativa de clima adverso, não deve haver grandes alívios para o consumidor".



