América Latina estagnada: Brasil freia crescimento enquanto Argentina se destaca
Um relatório do Banco Mundial, divulgado na quarta-feira 8 de abril de 2026, apresenta um panorama amargo para a América Latina, com um contraste gritante entre as duas maiores economias do Cone Sul. Enquanto a região caminha para uma expansão pífia de 2,1% neste ano, consolidando-se como uma das áreas de crescimento mais lento do mundo, o Brasil aparece perdendo fôlego, enquanto a Argentina de Javier Milei é alçada ao posto de principal "exceção positiva" do bloco.
O documento intitulado "Revisitando a Política Industrial" serve como um alerta para o Brasil e seus vizinhos. O Banco Mundial argumenta que a América Latina está presa em um "equilíbrio de baixo crescimento" há décadas porque não aprendeu a "apostar" em novas tecnologias e produtividade.
O resfriamento brasileiro: juros altos e crédito sufocado
De acordo com o documento, o Brasil deve enfrentar uma desaceleração ainda maior em 2026. O diagnóstico é direto: o país sofre com condições financeiras apertadas e taxas de juros reais elevadas que sufocam o crédito e o investimento.
O relatório destaca que o Brasil é o único entre as grandes economias regionais a registrar um aumento gradual na inadimplência (NPLs), reflexo dos juros altos sobre os tomadores mais vulneráveis. Sem o avanço de reformas que deem fôlego ao investimento privado, o país segue ancorado em um modelo de consumo modesto e espaço fiscal limitado.
Segundo o Banco Mundial, mesmo a queda dos juros no começo deste ano e os preços vantajosos de commodities "permanecem insuficientes para superar o entrave causado por tensões comerciais persistentes, incertezas em matéria de políticas, espaço fiscal limitado e demanda privada fraca" no Brasil.
"Uma melhora mais perceptível deverá ocorrer apenas se as condições monetárias se normalizarem e as pressões globais diminuírem", afirma o organismo internacional.
A exceção argentina: ajuste fiscal e expectativas renovadas
O tom muda drasticamente ao falar da Argentina, descrita como o grande destaque de superação do cenário de baixo crescimento. O Banco Mundial atribui essa virada a um "ajuste fiscal decisivo", que transformou o déficit abismal de 2023 em superávits primários e gerais em 2025 e 2026.
De perfil (ultra)liberal, o presidente argentino Javier Milei tem levado adiante, desde que chegou ao poder em 2023, uma agenda de reformas econômicas para conter a inflação e estimular o crescimento do país.
Os resultados práticos do receituário de Milei impressionam os técnicos em Washington:
- Risco soberano em queda livre: O spread do EMBIG (risco-país), que orbitava os 2.200 pontos, despencou para menos de 600 pontos em março de 2026
- Retorno dos investimentos: A implementação do RIGI (Regime de Incentivo a Grandes Investimentos) está atraindo capital estrangeiro para setores estratégicos como energia, mineração (lítio) e tecnologia
- Expectativas renovadas: Após anos de retração, a projeção de crescimento acumulado para a Argentina entre 2024 e 2027 saltou para robustos 12,2%
No relatório, o Banco Mundial projeta um crescimento de 3,6% do PIB argentino neste ano, contra 4,4% em 2025 e tombo de 1,3% em 2024. Em comparação, a estimativa para a expansão da economia brasileira é de 2,2% em 2025, contra 2,8% no ano passado e 3,4% em 2024.
Lição de casa para a região: Estado capaz e ajustes fiscais
Para o Banco Mundial, não basta apenas gastar; é preciso um Estado capaz, instituições sólidas e, principalmente, coragem para ajustes fiscais que ancorem a confiança — exatamente o que, no momento, parece cruzar a fronteira de Buenos Aires em direção oposta à de Brasília.
No entanto, o Banco Mundial destaca que apesar do entusiasmo com o ajuste fiscal e a queda do risco-país, Buenos Aires ainda opera em um equilíbrio frágil, com reservas esgotadas e um setor financeiro interno muito pequeno para sustentar sozinho um crescimento robusto sem apoio externo e continuidade das reformas.
O relatório conclui que a América Latina precisa urgentemente de políticas que estimulem o investimento privado e a produtividade, elementos que atualmente parecem estar mais presentes na Argentina do que no Brasil.



