PF desarticula esquema de fraudes em concursos públicos com prisões em João Pessoa
A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira a Operação Concorrência Simulada, que investiga um sofisticado esquema de fraudes em concursos públicos em todo o país. A ação, que mira a chamada "Máfia dos Concursos", cumpriu 11 mandados de busca e apreensão e resultou na prisão de duas pessoas em João Pessoa, capital da Paraíba.
Alvos da operação incluem autoridades e servidores públicos
Entre os investigados estão figuras de destaque no serviço público, como Gustavo Xavier do Nascimento, atual delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, suspeito de pressionar familiares do grupo criminoso para garantir aprovações ilícitas em concursos. Também estão na lista Ramon Izidoro Soares Alves, vereador e policial civil, e Waldir Luiz de Araújo Gomes, servidor do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba, identificado como "Mister M" na investigação.
Os dois presos em flagrante são Dárcio de Carvalho Lopes, professor de português e funcionário da Caixa Econômica Federal, e Flávio Luciano Nascimento Borges, também servidor da Caixa. Ambos já respondem por processos anteriores relacionados a fraudes em concursos públicos.
Esquema familiar cobrava até R$ 500 mil por vaga
Segundo as investigações da PF, o esquema criminoso tem sede em Patos, no Sertão paraibano, e é liderado por uma família que atuava há mais de uma década no mercado ilegal de aprovações em concursos. O grupo utilizava métodos sofisticados para burlar os sistemas de segurança, incluindo:
- Implantes cirúrgicos de pontos eletrônicos
- Comunicação em tempo real durante as provas
- Uso de dublês para fazer as avaliações
- Falsificação de documentos e corrupção de fiscais
Os valores cobrados variavam conforme o cargo e a dificuldade do concurso, chegando a R$ 500 mil por vaga. Além de dinheiro vivo, o grupo aceitava pagamentos em ouro, veículos e até procedimentos odontológicos como forma de quitar as propinas.
Concursos federais entre os principais alvos
A investigação aponta que as fraudes atingiram importantes concursos nacionais, incluindo:
- Polícia Federal
- Caixa Econômica Federal
- Polícias Civil e Militar
- Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
- Banco do Brasil
- Concurso Nacional Unificado (CNU)
No caso específico do CNU, a PF identificou que Ingrid Luane de Souza Ferreira teria fotografado as provas para que as respostas fossem enviadas através de dispositivos eletrônicos. Já Flávio Pedro da Silva e Alvanir Gomes da Silva são apontados como beneficiários diretos das fraudes neste concurso.
Repercussão e silêncio dos investigados
O g1 tentou contato com o delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, a Secretaria de Segurança Pública do estado e a própria Polícia Civil alagoana. A SSP-AL informou que só se pronunciará quando for formalmente notificada sobre os fatos, enquanto o delegado e a corporação policial não responderam até o fechamento desta matéria.
O Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba, questionado sobre o servidor Waldir Luiz de Araújo Gomes, afirmou que não comentará assuntos sobre os quais não foi formalmente oficiado. A Câmara Municipal de Arapiraca também não se manifestou sobre o vereador Ramon Izidoro. As defesas dos demais investigados não foram localizadas para prestar esclarecimentos.
Histórico criminal e operações anteriores
Esta não é a primeira vez que a PF age contra essa organização criminosa. No ano passado, uma operação similar resultou na prisão do então líder do grupo, que posteriormente veio a falecer na Paraíba. A investigação atual revela que o esquema continuou ativo mesmo após esse revés, adaptando-se e expandindo suas atividades.
Os investigadores destacam que a "Máfia dos Concursos" não apenas vendia aprovações, mas também corrompia agentes de fiscalização e utilizava tecnologia de ponta para garantir cargos de alto escalão no serviço público. A complexidade do modus operandi exigiu meses de trabalho das equipes da Polícia Federal para desvendá-lo completamente.
A operação foi deflagrada simultaneamente na Paraíba, Alagoas e Pernambuco, demonstrando o alcance interestadual do esquema criminoso. As investigações continuam em andamento, com possibilidade de novas prisões e descobertas sobre a extensão completa das fraudes.



