Candidatos denunciam fraude em concurso para professores em São João da Baliza, RR
Fraude em concurso para professores é denunciada em Roraima

Candidatos denunciam múltiplas irregularidades em concurso para professores no Sul de Roraima

Candidatos que disputam uma das 30 vagas no concurso público para professores da rede municipal de São João da Baliza, localizada no Sul de Roraima, formalizaram denúncias graves sobre supostas irregularidades na aplicação das provas. As acusações surgiram nesta segunda-feira (23), logo após a divulgação da lista de classificados para a correção da prova dissertativa. Os participantes suspeitam de fraude e apontam uma série de falhas que comprometeriam a lisura do processo seletivo.

Falhas apontadas pelos candidatos incluem violação de sigilo

De acordo com os relatos, os envelopes contendo as provas foram entregues já abertos, sem o lacre adequado, o que violaria o sigilo necessário. Além disso, não foi realizada a coleta de biometria, medida prevista expressamente no edital do certame. Os candidatos também destacam a falta de transparência nos critérios de classificação, sugerindo que poderiam beneficiar concorrentes com ligações políticas na cidade.

As provas foram aplicadas no dia 15 de fevereiro, apenas 37 dias após a publicação do edital, em 9 de janeiro. O g1 obteve acesso a dois boletins de ocorrência registrados por candidatos contra a banca avaliadora, a NTCS Consultoria e Seleções. Atualmente, 94 dos 610 inscritos foram classificados e terão suas questões dissertativas corrigidas. A primeira convocação dos aprovados com resultado final está prevista para esta terça-feira (24).

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Lista detalhada de irregularidades relatadas

Os candidatos ouvidos pela reportagem enumeraram as seguintes falhas durante a aplicação do concurso:

  • Envelopes de provas abertos antes do início oficial do certame;
  • Ausência total da biometria, contrariando o edital;
  • Questões com respostas duplicadas que não foram anuladas, mesmo após recursos;
  • Divergências significativas nos critérios de classificação publicados pela banca organizadora;
  • Autorização para uso de caneta com cor diferente da especificada no edital.

Os participantes afirmam que registraram denúncias internas e ingressaram com recursos administrativos junto à banca, mas todas as solicitações foram indeferidas. Eles também relataram ter formalizado queixas no Ministério Público de Roraima (MP-RR).

Vagas e etapas do concurso municipal

As 30 vagas disponíveis no edital previam contratação imediata, além da formação de cadastro de reserva. Todas as posições eram destinadas à Secretaria Municipal de Educação, distribuídas entre professor da educação básica (28 vagas) e professor de educação física (2 vagas). O processo seletivo consistia em prova objetiva e prova dissertativa, realizadas no mesmo dia, com validade de dois anos, passível de prorrogação por igual período.

Posicionamento da banca organizadora e da prefeitura

Em nota oficial, a NTCS Consultoria e Seleções afirmou que seguiu rigorosamente os protocolos estabelecidos nos editais e negou qualquer irregularidade. A empresa destacou que "a abertura dos lacres dos malotes ocorre exclusivamente em sala de aula, na presença dos candidatos" e reforçou seus 11 anos de atuação no estado, utilizando ferramentas tecnológicas para garantir processos seguros e transparentes.

A prefeita Luiza Maura (PP) informou que a organização, aplicação e correção do certame estão sob responsabilidade integral da empresa especializada contratada. Ela acrescentou que a prefeitura não recebeu qualquer comunicação formal sobre ocorrências ou irregularidades durante a aplicação das provas.

Ministério Público recebe denúncias e pede provas

O MP-RR, por meio da Promotoria de Justiça de São Luiz do Anauá, confirmou ter recebido dois e-mails de candidatos insatisfeitos com a falta de transparência na correção das provas e na publicação dos resultados. A Promotoria orientou que os candidatos que se sentirem prejudicados entrem em contato pelos canais disponíveis, apresentando elementos probatórios e relatos objetivos sobre as inconsistências identificadas, para permitir a análise do caso.

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Relatos de candidatos destacam desorganização e suspeitas

Uma pedagoga de 34 anos, que não foi classificada, relatou que problemas similares ocorreram em outras salas. Ela descreveu a aplicação do certame como "desorganizada" e afirmou que, mesmo com questionamentos registrados em ata durante a prova, a banca não tomou medidas corretivas. "Não dava para se negar a fazer a prova, pois a gente vinha de outra cidade", explicou.

Outros candidatos mencionaram suspeitas de favorecimento político, observando que nomes de pessoas com ligações a agentes públicos municipais aparecem entre os classificados. "A maioria dos classificados é parente de vereador, cunhado, esposa, primo. Tem vereador que tem dois, três familiares passando", afirmou uma pedagoga de 40 anos.

Recursos indeferidos e sentimento de injustiça

Os candidatos relataram que todos os recursos administrativos apresentados foram indeferidos pela banca organizadora. Um pedagogo de 27 anos destacou o curto prazo entre a publicação do edital e a aplicação da prova como um fator prejudicial. "Concurso geralmente dá pelo menos três meses para estudo. Esse foi tudo feito às pressas", disse.

Muitos participantes tiveram gastos significativos com deslocamento de outras cidades, como Boa Vista, gerando um sentimento de injustiça e falta de transparência. "Gastei cerca de R$ 600 com passagem, hotel e alimentação. No fim, fica o sentimento de falta de transparência", desabafou um dos candidatos.

Contexto de polêmicas anteriores na gestão municipal

A prefeita Luiza Maura já foi alvo de uma operação do MP-RR com apoio da Polícia Civil, em março de 2025, para investigar suposta interferência em processos seletivos para contratação de profissionais da Educação no município. Ela está no segundo mandato, tendo sido reeleita com 79,50% dos votos em 2024.