Custo-cidade invisível: debate sobre jornada de trabalho ignora horas perdidas em deslocamentos
O debate nacional sobre a redução da jornada de trabalho para seis horas diárias com um dia adicional de descanso semanal está incompleto, segundo análise do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper. Embora dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) mostrem que o brasileiro trabalha menos que a média mundial, existe um custo invisível que consome horas preciosas da população: o tempo gasto em deslocamentos, esperas e acesso a serviços básicos.
Os números que não contam toda a história
O estudo da FGV Ibre, divulgado em fevereiro, revela que a média mundial de trabalho remunerado foi de 42,7 horas semanais no período 2022-2023, enquanto o Brasil registrou apenas 40,1 horas. No ranking bruto de países com séries históricas longas, o país ocupa a 38ª posição. Quando se ajustam os números considerando produtividade e demografia, a posição brasileira cai para cerca do 60º lugar, no terço inferior da lista.
"Esses números incomodam tanto quem repete que o brasileiro trabalha demais quanto quem supõe que a escala de seis horas esgota o problema", analisa o estudo. A exaustão dos trabalhadores não seria explicada apenas pelas horas pagas registradas em contrato, mas por um fator que raramente entra nas comparações internacionais: o chamado custo-cidade.
A jornada invisível do transporte
Fica fora das análises tradicionais o tempo que as cidades brasileiras cobram de seus habitantes quando se consideram mobilidade, oportunidades e acesso a atendimentos básicos. Horas que não aparecem em planilhas internacionais, mas que impactam profundamente a vida de quem mora longe do emprego e dos serviços essenciais.
São Paulo oferece um exemplo concreto dessa realidade. Segundo a Pesquisa Origem-Destino 2023 do Metrô, o tempo médio de viagem diária no transporte coletivo é de 58 minutos, enquanto no modo individual (carro) é de apenas 28 minutos. São 30 minutos a mais por trajeto para quem depende do transporte público. Somando ida e volta, isso representa uma hora adicional por dia – uma verdadeira segunda jornada de trabalho que permanece invisível nas estatísticas oficiais.
Fortaleza: o caso exemplar da desigualdade no tempo
A capital cearense explicita esse mecanismo com ainda mais clareza. No diagnóstico do Plano de Acessibilidade Sustentável de Fortaleza (PASFor), o transporte coletivo consome diariamente 67,9 minutos, contra 18,3 no automóvel e 14,1 na motocicleta. Parte substancial desse tempo não é gasto propriamente no deslocamento, mas em esperas e no acesso ao sistema de transporte.
"Quando o coletivo cobra uma hora de ida e volta, a resposta é previsível", aponta a análise. "As pessoas compram tempo com moto e aplicativos de transporte. O tempo vira mercadoria, e a desigualdade se transforma em um pedágio diário pago por quem não escolhe onde mora."
A armadilha do debate simplificado
Reduzir a jornada de trabalho de seis para cinco horas diárias representa uma melhoria real e concreta para os trabalhadores. No entanto, esse dia extra de descanso pode desaparecer rapidamente em manutenção logística se as cidades – mal planejadas, desiguais e injustas – continuarem confiscando horas preciosas em deslocamentos intermináveis.
A simples redução da jornada não move empregos para perto das residências, não diminui a espera nos pontos de ônibus, não coloca postos de saúde a quinze minutos a pé das comunidades. A reforma urbana precisa ir além da mobilidade, que é apenas um sintoma de problemas estruturais mais profundos.
As causas territoriais do problema
A raiz do problema está na base territorial das cidades brasileiras: moradias distantes de empregos e serviços, centralidades excessivamente concentradas, barreiras físicas que dificultam a circulação e oferta desequilibrada de equipamentos públicos como parques e áreas de lazer.
Em muitos municípios, incentivos fiscais e a lógica da terra barata empurraram parte da produção habitacional subsidiada, inclusive no programa Minha Casa, Minha Vida, para áreas periféricas distantes dos centros urbanos. "Terra barata no orçamento virou tempo caro na vida", resume a análise. "O custo real foi terceirizado para quem acorda mais cedo, chega mais tarde e ainda assim aparece nas estatísticas como alguém que trabalha menos que a média mundial."
Repensando o debate com contexto
Discutir a jornada de trabalho sem enfrentar as demandas do território e o direito à cidade como um todo é como ajustar o ponteiro sem consertar o mecanismo do relógio. Trata-se de um debate necessário – especialmente para evitar que dados e evidências sejam lidos sem o contexto adequado –, mas que se mostra insuficiente para resolver o problema da exaustão urbana.
A análise conclui que a reforma urbana é crucial para reverter esse cenário de jornadas invisíveis que consomem o tempo e a energia dos trabalhadores brasileiros, criando cidades mais justas e humanas onde o tempo não seja uma mercadoria acessível apenas para alguns.



