O Rio Grande do Sul está enfrentando uma escassez preocupante de profissionais para atuar como peão de estância, uma figura tradicional na lida com o gado. A busca por melhores salários tem levado esses trabalhadores a deixarem o campo em direção à cidade, transformando o mercado de trabalho rural. Vagas que antes eram preenchidas por indicação agora são anunciadas em agências do Sistema Nacional de Emprego (Sine).
Motivações financeiras e a saída do campo
Joaquim Pedro Rodrigues é um exemplo dessa mudança. Ex-peão de estância, ele trocou o cavalo pelo caminhão e hoje trabalha como motorista. Embora sinta falta da vida no campo, a decisão foi motivada pela questão financeira. "A decisão foi tomada de coração partido, mas foi por causa de agregar valores. Um capataz deve estar entre R$ 2.500 e R$ 3 mil", explica, comparando com as oportunidades na cidade. O sentimento de Joaquim é de saudade: "A gente está com o pé aqui na cidade e o coração lá no campo. Eu passo nas fazendas e me enxergo lá, trabalhando no campo", conta.
Dificuldade de contratação e anúncios no Sine
Essa escolha tem se tornado comum, dificultando a contratação de mão de obra para as fazendas. Recentemente, um anúncio de vaga para peão campeiro em São Borja circulou nas redes sociais. Em Bagé, a agência do Sine também abriu processo seletivo para a função, algo incomum no passado. "A gente está com uma dificuldade para esses trabalhadores da zona rural, não tem tido tanta procura", afirma a coordenadora do Sine de Bagé, Leísa Flores. "Utilizamos os meios de comunicação para dar ampla divulgação às vagas de emprego que exigem deslocamento, não só em Bagé, mas também em Dom Pedrito, Aceguá e Pinheiro Machado", complementa.
Crescimento do setor agropecuário
A dificuldade em encontrar mão de obra ocorre mesmo com o setor agropecuário apresentando crescimento no estado. Em 2025, o setor teve expansão e criou cerca de mil empregos. Para o superintendente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Eduardo Condorelli, a vida urbana nem sempre é a solução definitiva. "É comum verificar pessoas que têm origem no campo optarem pelo trabalho urbano, mas que, ao longo de um período na cidade, enfrentam muita dificuldade, compreendem que a vida no campo lhe oferece mais tranquilidade. Talvez não com mais renda, mas certamente com uma qualidade de vida melhor", avalia.
O dilema do retorno
Ainda assim, para muitos, o retorno depende de uma proposta financeira mais atraente. Joaquim resume o dilema: "Se eu tivesse uma oportunidade hoje que fosse melhor em valores do que no caminhão, eu largaria na hora. O campo é tudo pra mim". A situação revela um desafio para o setor agropecuário gaúcho, que precisa encontrar formas de atrair e reter esses profissionais essenciais.



