Uma parceria entre pesquisadores da Embrapa e comunidades indígenas está no centro de uma iniciativa inovadora para conter o avanço da vassoura-de-bruxa da mandioca nas terras indígenas de Oiapoque, no extremo norte do Amapá. A estratégia combina análises laboratoriais com o conhecimento tradicional dos agricultores locais, que foram os primeiros a identificar os sintomas da doença em território brasileiro.
Origem e disseminação da praga
Causada pelo fungo Rhizoctonia theobromae, a praga foi registrada originalmente em roças próximas à fronteira com a Guiana Francesa. Atualmente, está presente em 12 dos 16 municípios do estado do Amapá, além de ocorrências no Pará. Por ter importância econômica e ainda não estar disseminada por todo o país, o Ministério da Agricultura e Pecuária a classifica como "praga quarentenária presente".
Monitoramento e experimentos genéticos
Equipes da Embrapa realizam visitas periódicas a aldeias, onde instalaram campos experimentais em roças de mandioca. O objetivo é testar a resistência de diferentes tipos de mandioca ao fungo. Ao todo, são avaliados 210 genótipos, incluindo variedades coletadas em diversas regiões do Brasil e cultivos locais. A análise foca em três pilares: incidência, ocorrência e severidade do fungo.
"A intenção é verificar o comportamento frente à doença. Procuramos sintomas associados, como o chamado 'roseta', visando selecionar plantas resistentes para o melhoramento genético", explica o pesquisador Saulo Oliveira.
União de saberes
A cooperação entre ciência e conhecimento tradicional tem se mostrado essencial para o combate à praga. Os agricultores indígenas, que conhecem profundamente o ecossistema local, contribuem com observações valiosas sobre o comportamento da doença e as variedades de mandioca mais resistentes. Essa troca de saberes acelera a identificação de soluções sustentáveis para proteger as lavouras.
Além do monitoramento genético, outras ações incluem a distribuição de materiais resistentes e a capacitação dos produtores para reconhecer e manejar a doença. A Embrapa também desenvolve um aplicativo gratuito que auxilia os agricultores no diagnóstico e controle da vassoura-de-bruxa.
Impacto econômico e social
A mandioca é um alimento básico para as comunidades da região, e a praga ameaça a segurança alimentar e a economia local. O governo do Amapá já destinou R$ 26 milhões para ações de combate à doença, visando garantir a produção e o sustento das famílias.
A expectativa é que, com a continuidade das pesquisas e a participação ativa das comunidades, seja possível conter o avanço da vassoura-de-bruxa e preservar uma das culturas mais importantes para a agricultura familiar no norte do Brasil.



