Tocantins: Produtores assumem asfaltamento de estradas para escoar safra histórica de grãos
A iminência de mais uma safra expressiva no Tocantins reacende um debate crucial para o agronegócio estadual: a urgência de uma malha viária em condições adequadas para garantir o escoamento eficiente da produção agrícola. Com a colheita de soja programada para iniciar no final de janeiro e intensificar-se entre fevereiro e março, os produtores rurais têm se mobilizado de forma organizada para enfrentar um dos principais obstáculos do setor fora das lavouras: a infraestrutura de transporte.
Estimativas recordes e desafios logísticos
Segundo projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra 2025/2026 de soja no Tocantins deve alcançar aproximadamente 5,75 milhões de toneladas. Esse volume robusto contribuirá para que a produção total de grãos do estado supere a marca de 9,6 milhões de toneladas, estabelecendo um novo recorde histórico. No entanto, para que essa produção massiva chegue aos mercados consumidores e aos portos de exportação, o percurso inicia-se nas estradas vicinais e nas rodovias estaduais, muitas delas em situação precária.
As estradas vicinais são fundamentais não apenas para assegurar o escoamento da safra, mas também para reduzir os custos logísticos que impactam diretamente a competitividade do agro tocantinense. Municípios como Lagoa da Confusão, Cristalândia, Pium, Formoso do Araguaia, Santa Rita do Tocantins e Dueré dependem intensamente dessas vias para transportar sua produção até as rodovias principais. Qualquer deficiência na malha viária se converte em atrasos operacionais, elevação de despesas e risco de perdas econômicas significativas.
Mobilização produtiva na região da Garganta
Na região conhecida como Garganta, localizada na divisa entre Tocantins e Bahia, a mobilização dos agricultores alcançou um patamar inédito. A estrada que delimita a fronteira entre os dois estados estende-se por cerca de 90 quilômetros, sendo que a atuação direta da associação de produtores concentra-se no trecho da Garganta. Paralelamente, existem vias no lado baiano que fornecem acesso às fazendas, onde o asfaltamento foi executado pelos próprios produtores em colaboração com a Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA), entidade com atuação ampla no Oeste baiano.
O produtor rural Martin Dowich detalhou que a iniciativa emergiu da necessidade prática de manter a produção em circulação. "Essa estrada da divisa Tocantins-Bahia tem aproximadamente 90 quilômetros. A nossa associação atua diretamente na Garganta, mas existem também estradas no lado da Bahia que dão acesso às fazendas. Lá, o asfalto foi feito pelos produtores em parceria com a AIBA", explicou.
Segundo Dowich, um dos segmentos mais estratégicos desse corredor logístico foi recentemente implantado pelos próprios agricultores. "Os 40 quilômetros que hoje dão sustentação a esse eixo não foram apenas recuperados. Eles foram feitos do zero, com asfalto novo, construído pelos produtores, porque não havia mais condições de depender de estrada de terra em uma região que escoa volumes cada vez maiores de grãos", afirmou. Ele ressalta que esse trecho já transformou a dinâmica do transporte regional. "A estrada que segue em direção a Mateiros é uma continuidade desses 40 quilômetros já asfaltados. A previsão agora é avançar com mais 13 quilômetros de asfalto novo e realizar a manutenção de outros 40 quilômetros, garantindo condições adequadas de tráfego em todo o corredor", complementou.
Impactos positivos na logística e na região
Com o progresso das obras, os benefícios já são perceptíveis no cotidiano de quem transporta produção e insumos. "Hoje sentimos o retorno em conforto, segurança e redução de custos. Por ali passa muito carregamento de soja, milho, algodão e também todos os insumos. E não é só o agro. A estrada melhora o acesso entre cidades e beneficia toda a região", completou Dowich.
Grande parte do fluxo logístico do Tocantins converge para a BR-153, principal corredor do estado, responsável por conectar a produção aos mercados do Sul e Sudeste e aos portos do Arco Norte. Além dela, as rodovias estaduais desempenham um papel estratégico no acesso aos terminais multimodais de Palmeirante, Porto Nacional e Alvorada, onde a carga é transferida para outros modais de transporte com destino final aos portos.
Urgência e soluções coletivas
A presidente da Aprosoja Tocantins, Caroline Barcellos, avalia que a mobilização dos produtores evidencia a premência de soluções diante da carência de infraestrutura adequada. "Com uma safra desse tamanho, não dá para pensar só na produção. A estrada também é parte da lavoura. Quando o produtor se organiza para construir ou manter uma estrada, não é por satisfação, mas porque precisa garantir o escoamento da produção diante da ausência do poder público", declarou.
Para o setor produtivo, a mensagem é clara: a competitividade do agro tocantinense depende, inevitavelmente, da capacidade de transformar gargalos históricos em soluções coletivas. Com a safra se aproximando, cada quilômetro asfaltado ou mantido representa menos custo, mais segurança e maior desenvolvimento ao longo das rotas que sustentam a economia estadual. A melhoria das estradas constitui uma parte estratégica da lavoura, impactando diretamente a segurança, a logística e o progresso regional.