Importação de morango do Egito derruba preços e ameaça produtores do Sul de Minas
A importação de morango do Egito disparou nos últimos anos, provocando um forte impacto no mercado interno brasileiro, especialmente no Sul de Minas, que é a principal região produtora do país. Produtores rurais denunciam concorrência desleal e afirmam que o aumento da oferta tem derrubado drasticamente os preços pagos ao agricultor brasileiro, colocando em risco a sustentabilidade da produção nacional.
Crescimento expressivo das importações
De acordo com a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), o Brasil importou cerca de 743 toneladas de morango em 2024. No ano seguinte, esse volume saltou para aproximadamente 2 mil toneladas, um aumento significativo que tem pressionado o mercado. Grande parte do produto importado é utilizada pela indústria alimentícia, na fabricação de iogurtes, geleias e outros derivados, mas também vem sendo comercializada como produto in natura, ampliando a concorrência.
Queda acentuada nos preços
Com mais morango disponível no mercado, os preços despencaram de forma alarmante. Em centrais de abastecimento como a Ceasinha, em Bom Repouso (MG), o valor do quilo do morango destinado à indústria caiu de cerca de R$ 5,00, em 2022, para aproximadamente R$ 1,50 atualmente. A produtora Samara Porfírio, que trabalha com morangos há duas décadas, relata prejuízos diretos após expandir o negócio e passar a fornecer fruta congelada para a indústria, perdendo contrato devido à concorrência com o produto importado, que chega ao mercado com preços entre R$ 6,30 e R$ 6,70 — abaixo do praticado pelos produtores locais.
"No primeiro contato ele [contratante] me apresentou o morango, disse que tinha grandes volumes e que conseguia manter qualidade e quantidade o ano todo, que é uma dificuldade que nós temos", conta a produtora, destacando a desvantagem competitiva.
Impacto na renda dos agricultores
Atualmente, o valor pago ao produtor pelo morango fresco no Sul de Minas varia entre R$ 20 e R$ 28, o que é considerado baixo e insuficiente para cobrir custos em muitos casos. A situação impacta cerca de 11 mil agricultores da região, gerando incertezas sobre a próxima safra. "Além da dificuldade de comercialização pelos estoques já estarem mais abastecidos, hoje o preço oferecido ao produtor rural faz com que haja um diferencial muito grande em relação ao ano passado. Isso impacta diretamente na renda das famílias envolvidas na produção do morango", afirma o gerente regional da Faemg, Caio Oliveira.
Liderança nacional em risco
Segundo dados da Faemg, o Sul de Minas colheu cerca de 195 mil toneladas de morango em 2025, consolidando-se como a maior região produtora do Brasil. No entanto, o cenário de preços em queda e mercado saturado levanta incertezas para a próxima safra, com produtores já avaliando reduzir a área de plantio. A família da produtora Talita Fortunato planejava plantar 40 mil pés de morango para colher a partir de maio, mas diante do risco de excesso de oferta e baixa rentabilidade, estuda a possibilidade de diminuir o número de mudas.
"Estamos a todo momento indo atrás disso, pesquisando para saber como é que está, se a gente aumenta [a produção], se chama ou não funcionário para trabalhar", explica Talita, refletindo a apreensão generalizada.
Denúncia de dumping na Assembleia
A situação foi tema de debate na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde representantes do setor denunciaram a prática de dumping — quando produtos são vendidos no mercado externo a preços abaixo do custo ou do valor justo, prejudicando a concorrência. Segundo especialistas, o caso pode ser levado à Organização Mundial do Comércio (OMC), por meio de uma denúncia formal. Caso a prática seja comprovada, o Brasil poderá aplicar tarifas para equilibrar o mercado, embora o processo seja considerado longo.
"É feita uma investigação, e se ficar constatado que existe realmente dumping em relação ao produto do morango egípcio, a OMC autoriza o Brasil a praticar tarifas que possam equalizar isso", explica o economista Ricardo Múcio.
Apelos por medidas rápidas
Enquanto isso, produtores seguem apreensivos e cobram medidas rápidas para garantir condições justas de concorrência. Apesar de reconhecerem a importância do comércio internacional, eles alertam que os preços atuais têm comprometido a sustentabilidade da produção nacional e a renda das famílias que dependem da cultura do morango. "É uma balança comercial, do mesmo jeito que vem o morango do Egito, vai o produto nosso para lá. Mas o que está acontecendo? O preço está desleal", reclama Edvaldo Melo, proprietário do Ceasinha de Bom Repouso, resumindo a frustração do setor.



