Um projeto inovador em Tomé-Açu, no Pará, está revolucionando a produção de dendê ao adotar sistemas agroflorestais que imitam a floresta. A iniciativa recupera o solo, aumenta a produtividade em até 38% por planta e desperta o interesse da indústria de cosméticos.
O azeite de dendê, ingrediente essencial do acarajé baiano, é o óleo vegetal mais consumido no mundo, presente em alimentos industrializados, cosméticos e biodiesel. No entanto, a cultura do dendê enfrenta críticas internacionais por estar associada ao desmatamento, especialmente no Sudeste Asiático.
No Pará, maior produtor brasileiro, esse cenário está mudando. Em Tomé-Açu, produtores adotam o Sistema Agroflorestal (SAF), que integra o dendê com espécies como açaí, cacau e andiroba. Diferente do monocultivo, o SAF reproduz o funcionamento da floresta, melhorando o equilíbrio ambiental e reduzindo a dependência de insumos externos.
Da crise à inovação
A vocação agrícola de Tomé-Açu remonta à década de 1920, com a chegada de imigrantes japoneses. Nos anos 1960, a região viveu o auge da pimenta-do-reino, mas o monocultivo intensivo esgotou o solo e favoreceu a fusariose, doença fúngica que devastou as plantações. Esse episódio forçou os produtores a repensar o modelo de produção.
O dendê foi introduzido nos anos 1980, inicialmente em monocultivo. Com o tempo, os agricultores incorporaram conhecimentos tradicionais da Amazônia, adotando sistemas diversificados. Os resultados atuais são expressivos:
- Produção por planta: no monocultivo, cada planta produz em média 130 kg de cachos por ano; no SAF, esse número chega a 180 kg, um aumento de 38%.
- Recuperação do solo: em cerca de 17 anos, a camada de matéria orgânica aumentou de 5 cm para mais de 30 cm.
- Valor de mercado: o dendê do SAF pode alcançar preços 15% a 20% superiores ao convencional.
Além disso, o próprio sistema fornece nutrientes naturalmente, reduzindo a necessidade de fertilizantes químicos. O projeto tem atraído a atenção da indústria de cosméticos, interessada em produtos sustentáveis.



