O Brasil acaba de lançar uma poderosa iniciativa científica para enfrentar uma das maiores ameaças à sua produção de laranja: o greening. A criação do CPA Citros (Centro de Pesquisa Aplicada em Inovação e Sustentabilidade da Citricultura) marca um novo capítulo na luta contra esta doença devastadora, reunindo esforços públicos e privados em uma frente ampla de pesquisa.
Uma rede global de conhecimento
Diferente de modelos anteriores, o novo centro se estrutura como uma parceria público-privada de alcance internacional. A rede é composta por 19 instituições de pesquisa e conta com a expertise de mais de 70 pesquisadores, incluindo brasileiros e especialistas de outros sete países. O anúncio foi feito nesta quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, em entrevista ao Record News Rural.
Juliano Ayres, diretor-executivo do Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura), destacou a inovação da proposta. "Nós estamos buscando nesse centro as mentes mais brilhantes que existem para atuar em todas as frentes", afirmou. O objetivo é investigar o problema de forma integral, desde a forma como o inseto transmissor adquire e espalha a bactéria, até o desenvolvimento de plantas resistentes ou mesmo uma cura.
Investimento e formação de especialistas
O projeto tem um orçamento previsto de R$ 200 milhões, a serem aplicados ao longo de uma década. Parte crucial da missão é a formação de uma nova geração de cientistas. Está previsto o apoio a 130 bolsistas durante esse período, garantindo a continuidade dos estudos e a renovação do conhecimento técnico no setor.
A urgência da iniciativa fica clara ao observar os números. No estado de São Paulo, o maior produtor nacional, aproximadamente 47% das plantas cítricas já estão contaminadas pelo greening. Apesar do cenário desafiador, a produtividade se mantém. "Apesar do greening ter um índice de próximo de 47% de plantas doentes, ainda temos produtividades muito boas", explicou Ayres, citando uma produção próxima de 300 milhões de caixas de laranja.
Um problema global com impacto local
O greening, ou Huanglongbing (HLB), é uma doença centenária, originária da Ásia. Sua chegada às Américas, no entanto, trouxe consequências catastróficas em algumas regiões. Detectada no estado de São Paulo em 2004 e na Flórida (EUA) em 2005, a praga dizimou pomares. Ayres fez um alerta comparativo: "A Flórida saiu de uma safra de 200, 240 milhões de caixa, há 20 anos atrás, para 15 milhões agora", uma queda drástica para cerca de 6% ou 7% da produção original.
O sucesso relativo do Brasil em conviver com a doença até agora se deve a medidas rigorosas de manejo adotadas pelos produtores, como inspeções constantes e controle do inseto vetor. O CPA Citros surge para ir além, unindo ciência de ponta, tecnologia e esforço conjunto para encontrar soluções definitivas. A iniciativa reforça a liderança brasileira no combate a esta praga e visa proteger um setor vital para a economia, responsável por uma parcela significativa das exportações globais de cítricos do país.