Café regenerativo: produção que sequestra carbono
Em meio a críticas sobre o impacto ambiental do agronegócio, um movimento ganha força dentro das propriedades rurais brasileiras: tornar visível o que já acontece há anos da porteira para dentro. Nas Fazendas Caxambu e Aracaçu, em Três Pontas (MG), estimativas técnicas indicam que a produção de café, inserida em um sistema regenerativo, pode remover até 100 quilos de carbono da atmosfera por saca produzida. O dado não se refere apenas ao café em si, mas ao sistema produtivo como um todo, que integra árvores, manejo de solo e processos biológicos capazes de capturar carbono e reduzir emissões.
A base desse modelo está na estrutura da lavoura. Com cerca de 117 mil árvores distribuídas entre os cafeeiros (uma árvore a cada sete pés de café), além de áreas preservadas e manejo orientado à regeneração do solo, o sistema amplia sua capacidade de captura de carbono ao mesmo tempo que reduz sua pegada operacional, por meio de mudanças progressivas no sistema produtivo. Trata-se de uma abordagem que transforma a lógica da lavoura: não apenas minimizar impactos, mas gerar efeitos positivos mensuráveis.
Mensuração e certificação de créditos de carbono
A mensuração desse processo é conduzida dentro do projeto de cafeicultura regenerativa da Cooxupé, com apoio científico da EPAMIG e das empresas GrowGrounds e Clima Café. A iniciativa permite quantificar tanto a captura quanto a redução de emissões, estruturando a geração de créditos de carbono certificados, posteriormente adquiridos por empresas da cadeia, como a sueca Löfbergs, em operações de insetting. O avanço desse modelo também dialoga com entidades do setor, como a BSCA (Brazil Specialty Coffee Association), que acompanha a evolução de práticas que conectam qualidade, rastreabilidade e responsabilidade ambiental no café brasileiro.
Para Maria Dircéia Mendes, da SMC, responsável pela exportação dos cafés das fazendas, essa mudança é também de percepção: “O que está acontecendo agora é que o mercado começa a enxergar o que já existe dentro das propriedades. O café brasileiro não é só competitivo em qualidade — ele também carrega um sistema produtivo cada vez mais alinhado com as demandas ambientais globais.” Embora os números ainda avancem em refinamento metodológico e ampliem sua base de validação, o que emerge desse modelo é uma mudança de leitura sobre o papel do agro: não apenas como produtor de alimentos, mas como parte ativa da solução climática.
Dimensão do impacto: o que são 100 kg de carbono?
Para dar dimensão ao impacto, a remoção de cerca de 100 quilos de carbono da atmosfera associada a uma única saca de café dentro do sistema das Fazendas Caxambu e Aracaçu pode ser comparada a diferentes referências do cotidiano:
- equivale aproximadamente às emissões geradas por um carro rodando entre 500 e 700 quilômetros;
- é próximo ao carbono emitido em um voo doméstico curto por passageiro;
- corresponde ao consumo de energia elétrica de uma residência brasileira por cerca de 2 a 3 meses;
- representa a quantidade de carbono que levaria anos para ser compensada por uma única árvore isolada;
- equivale à queima de aproximadamente 40 a 50 litros de gasolina.
Sobre as Fazendas Caxambu e Araçaçu
Localizadas em Três Pontas, no Sul de Minas Gerais, as Fazendas Caxambu e Araçaçu são propriedades de um grupo familiar liderado por Carmem Lúcia Ucha. Cooperadas da Cooxupé e contando com a SMC como a mais importante parceria em seu projeto de exportação de cafés especiais, as fazendas combinam tradição cafeeira com um conjunto crescente de práticas regenerativas voltadas à redução de emissões e ao aumento da biodiversidade. Esse cuidado também se reflete na qualidade dos cafés produzidos, reconhecida internacionalmente, com destaque para a conquista do primeiro lugar na categoria Natural no Cup of Excellence 2025, o maior e mais importante concurso global de cafés de excelência, promovido no Brasil pela BSCA. A condução desse padrão de excelência sensorial está sob a responsabilidade de Dionatan Almeida, campeão mundial de Cup Tasters, que lidera o trabalho de avaliação e refinamento sensorial da produção.
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