Agricultor encontra possível poço de petróleo ao perfurar solo em busca de água no Ceará
Agricultor acha possível petróleo ao perfurar poço de água no CE (08.03.2026)

Descoberta acidental: agricultor encontra líquido escuro ao perfurar poço no Ceará

Em novembro de 2024, o agricultor Sidrônio Moreira realizava uma perfuração de aproximadamente 40 metros de profundidade em sua propriedade em Tabuleiro do Norte, interior do Ceará, com o objetivo de encontrar água para abastecer sua família. No entanto, o que emergiu do solo foi um líquido escuro e viscoso que imediatamente chamou sua atenção. Um vídeo gravado pela família na época registra o momento exato em que a substância surge e o agricultor comemora, inicialmente pensando se tratar de água.

Testes laboratoriais apontam para petróleo

Após a descoberta, amostras do material foram enviadas para análises laboratoriais. Testes preliminares realizados no Núcleo de Pesquisa em Baixo Carbono da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró, Rio Grande do Norte, indicaram que o líquido apresenta características físico-químicas semelhantes ao petróleo extraído da Bacia Potiguar, região petrolífera localizada na divisa entre Ceará e Rio Grande do Norte. O local do achado em Tabuleiro do Norte está a apenas 11 quilômetros dessa bacia.

O professor de Engenharia Química da Universidade Federal do Ceará (UFC), Hosiberto Batista, que também analisou amostras, destacou a profundidade rasa de 40 metros como "pouco comum" para a ocorrência de petróleo. "Foi não usual a profundidade que achou esse [suposto] petróleo. É uma região que não estava nem catalogada pela ANP para futuras licitações", explicou o especialista.

ANP inicia investigação oficial

A confirmação definitiva de que se trata de petróleo só pode ser feita pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), órgão responsável pela regulamentação do setor. A família de Sidrônio Moreira entrou em contato com a ANP em julho de 2025, mas a agência demorou meses para responder. Em fevereiro de 2026, a ANP confirmou ao g1 que recebeu a notificação e iniciaria investigações.

No dia 3 de março de 2026, a agência notificou oficialmente a família via e-mail, informando que enviaria uma equipe ao local para avaliar a situação, sem estabelecer um prazo específico. A ANP também afirmou que contataria a Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Ceará (Sema) para acompanhar o caso e avaliar possíveis impactos ambientais.

Contexto da produção de petróleo no Ceará

Atualmente, a produção de petróleo no Ceará é considerada pouco relevante em comparação com outras regiões do país. As atividades estão concentradas principalmente no bloco "Fazenda Belém", nos municípios de Aracati e Icapuí, na divisa com o Rio Grande do Norte, com uma produção média de aproximadamente 575 barris de óleo por dia. Em 2022, a Petrobras vendeu sua participação nos campos terrestres do estado por considerar a extração pouco atrativa.

Hosiberto Batista comparou: "Comparado com os grandes poços de petróleo, como a Bacia do Pré-sal, a Bacia de Santos, de Búzios, ou a região onshore do Recôncavo Baiano, a produção no Ceará é muito pequena mesmo". O Campo do Amaro, no Rio Grande do Norte, que faz parte da Bacia Potiguar, produziu em média mais de 6 mil barris por dia em 2024.

Incertezas e desafios para a família

Enquanto aguarda a resolução da ANP, a família de Sidrônio Moreira enfrenta dificuldades práticas. A necessidade de água persiste, mas a perfuração de novos poços tornou-se mais complexa devido à possível presença de petróleo. A família foi alertada sobre riscos ambientais, como a contaminação do lençol freático caso um poço seja perfurado incorretamente.

Atualmente, em boa parte do ano, a família depende de carregamentos de água de carro-pipa para abastecer a propriedade. A descoberta do líquido, que poderia representar uma riqueza mineral, paradoxalmente agravou a situação de escassez hídrica na propriedade.

Próximos passos e viabilidade econômica

Após a confirmação da ANP, caso se comprove que o líquido é petróleo, a agência deverá realizar análises sísmicas na região para dimensionar o tamanho do possível reservatório, sua extensão e viabilidade econômica. Hosiberto Batista explicou: "Pode ser que aquele óleo seja petróleo, mas cuja quantidade não valha a pena explorar. Não tem análise sísmica ainda para saber a dimensão do reservatório".

O processo inclui a divisão da região em blocos de exploração, que seriam leiloados para empresas interessadas. No entanto, muitas áreas mapeadas não atraem investidores devido a fatores como tamanho reduzido da jazida, dificuldade de extração, custos operacionais elevados ou baixa qualidade do petróleo.

O caso de Tabuleiro do Norte chama atenção não apenas pela possível descoberta de petróleo em uma região não catalogada, mas também pelo contexto social e ambiental envolvido. Enquanto a ANP investiga, agricultores continuam sua busca por água em um sertão que agora guarda um novo mistério geológico.