Tarifaço americano mantém sobretaxa de 50% para produtos estratégicos do agro brasileiro
A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de suspender o tarifaço imposto durante o governo Trump trouxe alívio para muitos setores do agronegócio brasileiro, mas deixou de fora quatro categorias importantes: café solúvel, uva, mel e pescados. Estes produtos continuam sujeitos à sobretaxa de 50% no mercado americano, conforme anunciado nesta sexta-feira (20).
Exceções que excluem setores relevantes
O governo americano havia tomado duas decisões anteriores que isentaram centenas de produtos brasileiros das tarifas adicionais. A primeira, em 14 de novembro, retirou a tarifa recíproca de 10% para cerca de 200 produtos alimentícios de diversos países. A segunda, no dia 20 do mesmo mês, foi especificamente direcionada ao Brasil e suspendeu a sobretaxa de 40% para mais de 200 produtos, que se somaram a uma lista anterior de quase 700 exceções ao tarifaço.
Entre os beneficiados estavam o café em grão e a carne bovina, respectivamente o segundo e o terceiro itens mais vendidos pelo setor agropecuário brasileiro aos Estados Unidos, atrás apenas dos produtos florestais. No entanto, café solúvel, uva, mel e pescados permaneceram de fora dessas isenções, mantendo a taxa de 50% que vem impactando significativamente suas exportações.
Impacto diferenciado por setor
Embora não tenham o mesmo peso que café em grão e carne bovina no total das exportações do agronegócio, estes quatro setores têm nos Estados Unidos um mercado relevante e estratégico para suas atividades. Após o anúncio da Suprema Corte, associações representativas foram procuradas para avaliar os impactos.
A Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca) e a Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel) não se pronunciaram até o fechamento desta reportagem. Já a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) e o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) informaram que ainda buscam mais informações para compreender completamente a medida. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) optou por não se manifestar no momento.
Café solúvel: perda de liderança histórica
O diretor-executivo da Abics, Aguinaldo Lima, já havia manifestado perplexidade em novembro sobre a exclusão do café solúvel das isenções. Em 2024, as vendas de solúvel para os EUA representaram 10% de toda a exportação da indústria brasileira de café, enquanto o café em grão já havia sido isentado.
"O café solúvel brasileiro sempre teve uma forte presença nos supermercados dos Estados Unidos", destacou Lima. No ano passado, 38% do café solúvel importado pelos americanos teve origem no Brasil, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.
As exportações brasileiras para o país começaram nos anos 1960, e os americanos se mantiveram como principal destino do solúvel nacional até o tarifaço. "A Rússia, que tradicionalmente sempre foi o segundo colocado, passou para primeiro. Algo inédito", revelou Lima, explicando que essa mudança ocorreu a partir de julho, quando Trump impôs a taxa adicional de 40%.
Desde então, o volume exportado para os EUA nos meses de agosto, setembro e outubro caiu aproximadamente 50% em comparação com o mesmo período de 2024.
Uva: realocação forçada de mercados
Em 2024, os Estados Unidos foram destino de 12% de todas as frutas frescas exportadas pelo Brasil. Nesse período, somente os exportadores de uva faturaram US$ 41,5 milhões, segundo a Abrafrutas. Dados do AgroStat, plataforma do Ministério da Agricultura, mostram que 23% do total de uvas vendidas para o exterior em 2024 foram para os EUA.
Entre outubro e novembro, a comercialização de uvas para os EUA caiu 73% na comparação com o mesmo período de 2024, conforme informou o diretor-executivo da Abrafrutas, Eduardo Brandão. Apesar de existir uma categoria de "frutas frescas" na lista de exceções publicada pela Casa Branca em novembro, a uva ficou de fora, conforme confirmado pela associação com a embaixada americana.
Brandão atribuiu essa exclusão ao fato de os EUA serem grandes produtores de uva, com expectativa de supersafra no próximo ano, além de importarem significativamente do Chile e do Peru. "Os cachos que deixaram de ir para os EUA já foram realocados para países da Europa e da América do Sul", afirmou. O maior prejuízo, segundo ele, foi a redução do poder de negociação para decidir preços devido à menor demanda.
Mel: dupla tributação prejudica competitividade
Além do tarifaço de 50%, o mel brasileiro já estava sujeito a uma taxa de importação de 8,04% nos EUA, conforme explicou Renato Azevedo, presidente da Abemel. Todos os contratos com os EUA estavam garantidos até dezembro de 2025, segundo Sitônio Dantas, diretor da Central de Cooperativas Apícolas do Semiárido Brasileiro (Casa Apis).
De acordo com o AgroStat, os Estados Unidos representaram quase 80% de todas as exportações de mel natural do Brasil, evidenciando a dependência do setor desse mercado.
Pescados: impacto social e econômico ampliado
A exclusão dos pescados das isenções do tarifaço também frustrou o setor, conforme destacou o presidente da Abipesca, Eduardo Lobo. Segundo a associação, as vendas de pescados para os Estados Unidos geram US$ 300 milhões por ano para o setor, com os norte-americanos representando quase metade de todas as exportações do alimento em 2024.
"A atividade tem um peso importante no sustento de comunidades costeiras e ribeirinhas, com forte impacto em pequenas e médias empresas, justamente onde a sensibilidade às tarifas é maior", afirmou Lobo.
Ele defendeu a urgência de recolocar o pescado brasileiro no radar das negociações bilaterais: "Precisamos de reciprocidade e de estratégia. A cada rodada de negociação em que o pescado é esquecido, perdemos espaço para concorrentes internacionais. O mercado americano é vital para o Brasil e a ausência de avanços é um sinal claro de que estamos ficando para trás."
A manutenção do tarifaço para estes quatro setores representa um desafio adicional para o agronegócio brasileiro, que busca diversificar mercados e manter competitividade em meio a barreiras comerciais que afetam especialmente produtos com valor agregado e cadeias produtivas regionais.



