Onda de choque da guerra no Oriente Médio atinge economia brasileira e expõe fragilidades
A guerra no Oriente Médio está causando um impacto direto no Brasil, com aumentos significativos nos preços de combustíveis e fertilizantes. Essa situação revela a vulnerabilidade paradoxal de uma potência agrícola que, apesar de alimentar o mundo, permanece altamente dependente de importações de insumos básicos. Em um ano eleitoral, tanto o governo quanto a oposição preferem culpar terceiros, evidenciando a falta de estratégias concretas para enfrentar uma crise que afeta profundamente o bolso dos eleitores e a economia nacional.
Protestos e queixas refletem crise imediata
Os efeitos da crise já são visíveis em diversas regiões do país. Na semana passada, Salvador foi palco de protestos de motoristas contra o aumento de aproximadamente 18% nos preços dos combustíveis. Simultaneamente, agricultores em estados como São Paulo, Goiás e Rio Grande do Sul reclamam não apenas da alta nos custos, mas também da queda no abastecimento de diesel durante a colheita. Essa onda de choque, que se espalha rapidamente pelas Américas, força governos a revisarem orçamentos e partidos a ajustarem suas estratégias na disputa pela Presidência.
Vulnerabilidades históricas e dependência externa
Entre guerras, como a invasão russa da Ucrânia há quatro anos e os recentes conflitos no Oriente Médio, ficam expostas as crescentes vulnerabilidades brasileiras. Pela primeira vez, o país enfrenta um aumento simultâneo nos custos de combustíveis e fertilizantes em plena colheita. O Brasil, um dos maiores exportadores de petróleo, precisa importar um terço do diesel consumido nas fazendas e no transporte agrícola. Abalos no mercado mundial de petróleo se propagam rapidamente pela economia, com impactos relevantes nos transportes e nos alimentos, devido à capacidade nacional de refino insuficiente e a projetos estatais caros e mal geridos, como a refinaria da Petrobras em Pernambuco.
Além disso, a elite permitiu que a potência agrícola chegasse a uma dependência externa quase total de fertilizantes. No ano passado, o país importou nove em cada dez toneladas de fertilizantes usados na adubação. Isso significa que o agronegócio brasileiro opera em escala recorde apenas se não enfrentar restrições significativas de custo e fluxo de matérias-primas, fornecidas principalmente por China, Rússia, Ucrânia e Irã.
Crescimento agrícola e desafios atuais
O boom no campo nas últimas três décadas deve muito à expansão no consumo de adubos como fósforo e potássio, com aumentos de até duas vezes por hectare plantado. Pesquisa realizada pelos institutos Escolhas e Folio, em parceria com a Itaúsa, mostra que a produção de soja no Brasil subiu de 23 milhões de toneladas em 1993 para 152 milhões de toneladas em 2023. Foi essa aditivação contínua que permitiu ao país ultrapassar os Estados Unidos na produção de soja em 2019. No entanto, essa dependência agora se torna um ponto fraco diante de crises geopolíticas.
Respostas políticas em ano eleitoral
O presidente Lula parece apreensivo com os efeitos da guerra. Em campanha, iniciou um ritual diário de acusações pelos danos colaterais no bolso dos eleitores, culpando governos como os dos Estados Unidos, China, França, Inglaterra, Rússia e Israel, além de comerciantes e o sistema financeiro. Essa postura evita explicações sobre falhas na preparação para a guerra, anunciada nos bombardeios ao Irã em meados do ano passado. A oposição, por sua vez, segue roteiro similar, culpando o governo Lula, em uma ciranda de autoisenção que deixa claro a falta de planos concretos dos candidatos.
A onda de choque da guerra demonstra a utilidade de um velho truque retórico em temporadas eleitorais, resumido pelo personagem Homer Simpson: "Se a culpa é minha, eu coloco ela em quem eu quiser". Enquanto isso, a ameaça ao bolso e ao humor dos eleitores continua a incomodar, sem soluções à vista para uma crise que expõe as fragilidades estruturais do Brasil.



