Desafios e Riquezas da Produção Artesanal da Castanha de Caju no RN
A castanha de caju representa uma fonte de renda crucial para pequenos produtores no semiárido do Rio Grande do Norte, mas a rotina de trabalho artesanal esconde desafios significativos. Sem acesso adequado a equipamentos de proteção, muitos agricultores sofrem queimaduras nas mãos durante o processamento, e em alguns casos, crianças também são envolvidas na produção familiar.
Importância Econômica e Social
No Nordeste brasileiro, aproximadamente 195 mil agricultores dedicam-se ao cultivo do caju, sendo que os pequenos produtores representam mais da metade desse total. A renda proveniente da castanha chega em um momento especialmente importante: durante a entressafra de culturas tradicionais como feijão, milho e algodão, garantindo sustento quando outras fontes estão escassas.
O Rio Grande do Norte consolida-se como o terceiro maior produtor nacional de castanha de caju, com uma produção impressionante de 20,5 mil toneladas. O estado fica atrás apenas do Ceará, que produz 102 mil toneladas, e do Piauí, com 25 mil toneladas.
Processo Artesanal na Comunidade Indígena
Na comunidade indígena Amarelão, localizada no município de João Câmara, a extração da castanha mantém métodos tradicionais. O processo envolve várias etapas meticulosas:
- A castanha é inicialmente levada ao tacho para torração
- Em seguida, passa por cozimento
- Finalmente, é quebrada manualmente para retirar a preciosa amêndoa
A comunidade beneficia impressionantes 42 toneladas de castanha semanalmente. Os trabalhadores iniciam suas jornadas ainda durante a madrugada, estratégia para escapar do intenso calor característico da região.
História de Superação Familiar
Sebastiana de Souza Raimundo e Damião Raimundo personificam a realidade de muitos produtores. O casal, que estudou apenas até a terceira série do ensino fundamental, começou a trabalhar com a castanha para sustentar a família formada quando Sebastiana tinha 14 anos e Damião apenas 17.
"A castanha mudou muito a nossa vida. Conseguimos construir a nossa casinha, compramos um carrinho, criamos as nossas filhas", relata Sebastiana com orgulho. O fruto do trabalho permitiu que suas filhas seguissem caminhos diferentes: Kaliane tornou-se professora, enquanto Kainara formou-se como técnica de enfermagem, demonstrando como a educação pode transformar destinos.
Riscos do Processamento: O Perigoso LCC
Atualmente, Sebastiana e Damião utilizam luvas de proteção, mas no passado sofreram diversas queimaduras nas mãos durante a extração da amêndoa. O responsável por essas lesões é o Líquido da Casca da Castanha de Caju (LCC), substância liberada durante a torra que pode causar queimaduras, irritações cutâneas e até mesmo apagar impressões digitais.
A castanha de caju possui estrutura complexa composta por três partes principais:
- A casca externa
- A película protetora
- A amêndoa comestível
Dentro da casca encontra-se um tecido esponjoso denominado mesocarpo, onde está concentrado o corrosivo LCC. A película atua como barreira natural, separando esta substância perigosa da amêndoa.
Persistência do Trabalho Infantil
Em 2012, o programa Profissão Repórter revelou casos preocupantes de trabalho infantil durante o processamento da castanha na comunidade. Embora a equipe do Globo Rural não tenha encontrado crianças trabalhando durante as gravações para reportagem exibida recentemente, a auditora do trabalho Marinalva Dantas confirma que o problema persiste.
O flagrante mais recente ocorreu em 2023, quando 30 adolescentes foram encontrados com as mãos machucadas pelo trabalho com a castanha. "O trabalho infantil continua, infelizmente. Como é no âmbito familiar, eles trabalham até às 7 horas da manhã, comem e vão para a escola. Lá eles não conseguem entender nada da aula, porque estão muito sonolentos", relata Dantas com preocupação.
A auditora enfatiza a importância de conscientizar as famílias sobre a proibição do trabalho para menores de 18 anos e destaca a necessidade de apoio governamental. "É fundamental que a prefeitura e o governo do estado ofereçam suporte adequado às famílias, criando alternativas que protejam as crianças sem comprometer a renda familiar", completa.
A produção artesanal da castanha de caju no Rio Grande do Norte revela assim uma realidade complexa, onde tradição, sustento familiar e desafios sociais se entrelaçam, exigindo atenção e políticas públicas que equilibrem preservação cultural, segurança no trabalho e proteção à infância.



