Agricultura brasileira em alerta com tensões no Oriente Médio
Os agricultores brasileiros enfrentam riscos significativos devido à escalada do conflito no Oriente Médio, segundo análises de mercado e especialistas. A região é um destino crucial para as exportações agrícolas do Brasil e uma fonte vital de fertilizantes, especialmente a ureia, essencial para a produção de grãos.
Rota marítima crítica sob ameaça
O estreito de Hormuz, uma via navegável fundamental, é responsável por cerca de 35% das exportações globais de ureia, de acordo com dados do grupo CRU. A ureia é o fertilizante nitrogenado mais utilizado mundialmente. A tensão entre Estados Unidos e Irã, com envolvimento de países vizinhos, pode levar a cancelamentos de contratos de grãos e escassez de fertilizantes no Brasil, que depende fortemente de importações.
Interrupções no tráfego marítimo pelo estreito de Hormuz podem afetar diretamente o abastecimento, conforme alertam analistas. Exportadores estão considerando descarregar cargas de grãos em Omã para evitar problemas no golfo Pérsico, mas a viabilidade dessa opção ainda é incerta, segundo a consultoria Argus.
Impactos nos preços e na logística
Os preços dos fertilizantes já registraram aumentos acentuados. A ureia granulada no Oriente Médio subiu aproximadamente US$ 130 por tonelada desde sexta-feira (27), enquanto os preços de exportação do Egito aumentaram cerca de US$ 125 no mesmo período. Contratos futuros de amônia na Europa também dispararam, com valores cerca de US$ 130 mais altos do que em meados de fevereiro.
As ameaças à navegação em águas perigosas elevaram o custo do seguro marítimo, explicou Arthur da Anunciação Neto, sócio-diretor da Alphamar Agência Marítima. Dez navios com mais de 600 mil toneladas de soja e farelo de soja brasileiros estavam programados para o Irã, mas podem ser desviados para outros destinos dependendo das circunstâncias.
Dependência brasileira e alternativas limitadas
O Brasil supriu 100% de suas necessidades de ureia com importações em 2025, com estimativas indicando que 41% dessas importações, ou quase 3 milhões de toneladas, passaram pelo estreito de Hormuz. O Irã, principal destino das exportações de milho do Brasil no ano passado, comprou cerca de 9 milhões de toneladas, representando aproximadamente 20% dos embarques.
Francisco Vieira, sócio-diretor da Agroconsult, destacou que a guerra provavelmente restringirá o fornecimento de ureia e aumentará os preços no curto prazo. "Do Irã não deve vir nada... Não se sabe se as fábricas estão sendo atingidas", afirmou. Remessas do Irã são frequentemente encaminhadas via Omã devido a sanções dos EUA.
Problemas futuros e cadeias de suprimento
Um conflito prolongado pode afetar as entregas de fertilizantes antes do ciclo de plantio da safra 2026/27 do Brasil, que começa em setembro. Thamires Cateli, fundadora da Hudie Consulting, observou que vendedores retiraram suas listas de preços de ureia esta semana, interrompendo o comércio global.
Alguns países, como Egito e Rússia, poderiam substituir parte dos embarques iranianos, mas riscos persistem. A China, outro grande produtor, vem reduzindo exportações para abastecer seu mercado interno, enquanto ataques com drones na Rússia mostram vulnerabilidades em cadeias alternativas de fornecimento.
Tomás Pernías, analista da StoneX, sugeriu que rotas mais afastadas do estreito de Hormuz podem ser consideradas, mas a incerteza permanece. A situação exige monitoramento contínuo para mitigar impactos na agricultura brasileira e na economia.
