Guerra no Irã ameaça fertilizantes e pode elevar preço de alimentos no Brasil
Conflito no Irã ameaça fertilizantes e preços de alimentos no Brasil

Brasil enfrenta risco alimentar com guerra no Irã e dependência de fertilizantes

O Brasil, reconhecido como um dos maiores exportadores globais de alimentos, paradoxalmente ocupa a posição de maior importador mundial de fertilizantes. Essa vulnerabilidade se torna crítica diante do conflito no Irã, que ameaça o fornecimento de ureia, um composto nitrogenado vital para a agricultura em larga escala. A recente escalada de tensões, incluindo o anúncio de um cessar-fogo condicional pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e ataques a instalações petroquímicas iranianas, coloca em xeque a estabilidade do setor agropecuário brasileiro.

Impacto direto na economia e na mesa do brasileiro

Com o agronegócio sustentando aproximadamente 30% do PIB nacional e dependendo de mais de 90% de fertilizantes importados, qualquer interrupção no fluxo desses insumos gera consequências imediatas. Bernardo Silva, diretor-executivo do Sinprifert, alerta que a cadeia produtiva já sofre com essa fragilidade estrutural. O problema transcende as porteiras das fazendas: como milho e soja formam a base da ração animal, uma alta nos fertilizantes desencadeia um efeito cascata. Se o conflito persistir, os preços do frango, dos ovos e da carne bovina podem subir significativamente nos supermercados brasileiros já no segundo semestre.

O boletim Focus do Banco Central reflete um pessimismo crescente quanto à inflação, com expectativas de alta de 4,6% para alimentos até o fim do ano, superando a projeção anterior de 1,4% para 2025. Protestos de associações agrícolas em Recife, pedindo ajuda governamental para fertilizantes, evidenciam a pressão no campo. A situação se agrava com reformas tributárias recentes que elevaram encargos como PIS/Cofins e Funrural, removendo a alíquota zero para fertilizantes e sementes.

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Dependência estratégica do Irã e riscos logísticos

Historicamente, a Rússia fornece cerca de 25% dos fertilizantes NPK (potássio, nitrogênio e fósforo) ao Brasil, mas a ureia tem no Irã um parceiro crucial. Em 2025, o Brasil importou US$ 72 milhões em fertilizantes iranianos, representando 80% das compras totais do país. O Catar também é um fornecedor relevante, utilizando o estreito de Ormuz para envios. A relação com o Irã se fortaleceu através do sistema barter, onde navios saem do Brasil com grãos e retornam com adubos, otimizando custos logísticos.

No entanto, essa engrenagem está ameaçada. Diferentemente do comércio russo, onde os riscos são majoritariamente econômicos, no caso iraniano a ameaça é física: instabilidades no estreito de Ormuz e ataques a plantas petroquímicas, como o ocorrido em Mahshahr, que resultou em mortes e feridos. Silveira, especialista do setor, adverte: "Nós não temos alternativa em relação à ureia. Para a próxima safra, ainda não devemos ter esse problema, mas em 2027 vai ser uma tragédia, com esse cenário maluco da guerra".

Consequências para produtores e inflação global

Se o fornecimento de ureia iraniana for interrompido, o Brasil terá que disputar o produto com potências como Índia e Estados Unidos em mercados alternativos, elevando preços globais e a inflação doméstica de alimentos. Bruno Fonseca, analista do Rabobank, destaca que os produtores já enfrentam crédito apertado e custos de produção crescentes. O Índice de Poder de Compra de Fertilizantes já sinalizava dificuldades antes do auge do conflito, com produtores necessitando de mais sacas de grãos para adquirir a mesma quantidade de adubo.

A curto prazo, os agricultores podem reduzir o uso de fertilizantes, diminuindo a produtividade por hectare. A médio prazo, a sustentabilidade do setor está em risco, com desafios para substituir a ureia iraniana. A China, potencial fornecedora, prioriza seu mercado interno, embora possa se tornar uma opção a partir de agosto.

Medidas de mitigação e críticas à política nacional

Para contornar bloqueios no Golfo Pérsico, o Ministério da Agricultura negociou um acordo com a Turquia, permitindo trânsito e armazenamento de cargas brasileiras. Paralelamente, a Petrobras reativou unidades de fertilizantes em Sergipe, Bahia e Paraná, com expectativa de atender até 35% da demanda nacional de ureia nos próximos anos.

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Contudo, Bernardo Silva critica a dependência histórica do Brasil: "São escolhas políticas erradas que a gente tomou ano após ano nos últimos 30 anos que deixaram a indústria nacional perder absoluta competitividade. Privilegiamos e incentivamos a importação, ou seja, o Brasil subsidiou a indústria estrangeira". O Plano Nacional de Fertilizantes, editado em 2023, visa reduzir a dependência externa para 50% até 2050, incluindo o Profert, um programa de incentivos fiscais aguardando aprovação legislativa. Silva enfatiza que o plano precisa se tornar uma ferramenta de ação, exigindo vontade política para reverter a vulnerabilidade. "Hoje, o problema é a guerra. Amanhã pode ser outro, se continuarmos assim", conclui.