Castanheiro desaparecido: 22 dias de luta pela sobrevivência
No dia 4 de abril, o castanheiro Jhemenson Rodrigues Gonçalves, de 33 anos, entrou na Floresta Estadual do Paru, localizada na divisa entre Amapá e Pará, para realizar uma caçada. O que era uma atividade rotineira transformou-se em um drama de sobrevivência. Ele se perdeu na mata e passou 22 dias sozinho, enfrentando fome, chuva e o medo constante de animais selvagens.
As buscas oficiais, conduzidas por forças de segurança, duraram 19 dias e foram encerradas em 21 de abril, seguindo os protocolos estabelecidos. Contudo, cinco dias depois, no domingo (26), por volta das 14h, Jhemenson foi encontrado debilitado, mas vivo, pondo fim à angústia de familiares e amigos.
Relato do sobrevivente
Em depoimento ao g1 e à Rede Amazônica nesta sexta-feira (1º), o castanheiro detalhou os momentos de desespero e superação. “Eu saí de manhã pra caçar e acabei pegando outro caminho. Quando percebi, já estava escurecendo e tive que montar um abrigo improvisado”, contou.
Nos primeiros dias, Jhemenson conseguiu se alimentar de cacau e outras frutas encontradas na floresta. Com o tempo, a escassez aumentou, e a água dos igarapés tornou-se sua principal fonte de sobrevivência. “Quando eu achava um cacau era uma felicidade tão grande. Mas depois não achei mais fruta e passei todos esses vinte dias só na água”, declarou. Ele emagreceu bastante e sentiu fraqueza, precisando recorrer a caranguejos para complementar a alimentação.
Noites de terror e fé inabalável
As noites na floresta foram marcadas por chuva intensa e pela presença de animais. O trabalhador relembra um episódio em que foi atacado por uma onça. “Me escondi bem escondido dos bichos, o bicho vinha bem perto de mim e eu ficava no chão. Todo dia chovia, dia e noite, e eu via minha camisa se rasgando no meu corpo, uma tristeza”, relatou.
Apesar das adversidades, a fé e o desejo de reencontrar a família foram essenciais para resistir. “Eu pedi muito a Deus. Chorei uma vez só, porque sabia que se eu me desesperasse podia enlouquecer. Foquei em sobreviver pra ver minha família”, disse Jhemenson.
O reencontro e a primeira refeição
Após caminhar por horas, ele encontrou um ramal e chegou a um barraco, onde havia comida. Foi ali que conseguiu se alimentar de forma adequada pela primeira vez em semanas. “A primeira coisa que eu fiz foi colocar meio quilo de feijão no fogo com arroz. Passei a noite toda comendo. Foi a melhor coisa da minha vida”, contou.
A família mobilizou a comunidade pelas redes sociais e manteve as buscas por conta própria. No hospital, o reencontro com os familiares foi marcado por emoção e gratidão. “Eu agradeço a todos que não desistiram de mim. Se fosse outra pessoa, tinha morrido de desespero. Eu sobrevivi porque Deus me deu força”, falou.
Moradores informaram que Jhemenson e os voluntários passaram a noite em um acampamento na floresta e retornaram para Laranjal do Jari na segunda-feira (27).



