Preço da carne suína cai 2,8% em março e amplia vantagem competitiva frente à bovina
Carne suína cai 2,8% em março e amplia vantagem frente à bovina

Diferença de preço entre carnes suína e bovina atinge maior nível em quatro anos

O mercado de proteínas animais vive um momento de inversão de tendências, com a carne suína ganhando competitividade significativa em relação à bovina. De acordo com análises recentes do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), sediado em Piracicaba (SP), o diferencial de preços entre as carcaças das duas proteínas alcançou o patamar mais elevado desde 2022.

Queda na suinocultura e alta na bovinocultura

Em fevereiro, o preço da carcaça suína havia registrado elevação de 10,8% na comparação com janeiro, passando para R$ 13,20 o quilo. Contudo, em março de 2026, as cotações da carcaça de porco apresentaram queda de quase 3%, enquanto os valores da proteína bovina seguiram em trajetória ascendente.

Essa gangorra de preços pode ser explicada por dois fatores principais: a baixa liquidez na suinocultura durante o período da Quaresma, quando a procura do consumidor tradicionalmente diminui, e o ritmo intenso das exportações da carne bovina, que já vinha sendo observado desde 2025.

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Diferencial histórico de preços

Nesse cenário, o diferencial de preços entre as carcaças bovina e suína chegou a R$ 14,26 o quilo em março de 2026. Este número representa uma alta de 6,8% quando comparado ao mês de fevereiro e configura a relação mais elevada em quatro anos. Para se ter uma referência, em abril de 2022, o valor do quilo do produto era de R$ 14,66.

A cotação média da carcaça especial suína comercializada no atacado da Grande São Paulo fechou em R$ 10,06 o quilo em março de 2026, marcando um recuo de 2,8% na comparação com fevereiro deste ano. "A desvalorização esteve atrelada à baixa liquidez tanto no mercado do animal vivo quanto no da carne, devido ao período da Quaresma", detalharam os pesquisadores do Cepea em boletins divulgados nesta quinta-feira (9).

Forças opostas no mercado de carnes

Enquanto a carne suína enfrenta pressão de baixa, a bovina experimenta valorização consistente. Os preços da carcaça casada bovina vendida na Grande São Paulo demonstraram valorização de 2,6% entre fevereiro e março, com média de R$ 24,32 o quilo em março de 2026.

Esse movimento de alta é sustentado pela baixa oferta de animais prontos para abate e pela forte demanda internacional pela carne brasileira. O ritmo intenso nas exportações de carne bovina in natura, iniciado no ano passado, segue firme no primeiro trimestre de 2026, com volumes recordes históricos.

Exportações em alta e valorização internacional

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) revelam que, de janeiro a março de 2026, foram exportadas 701,662 mil toneladas de carne bovina in natura. Este volume representa um aumento de 19,7% em relação ao mesmo período de 2025 e 36,6% acima do registrado em 2024.

Além do aumento nos volumes, os pesquisadores do Cepea chamam atenção para a valorização da carne brasileira no mercado internacional. Em março, o preço médio pago por tonelada foi de US$ 5.814,80, registrando alta de 3,1% em relação a fevereiro e de 18,7% frente a março de 2025.

Mercado doméstico e fatores externos

Neste início de abril, os preços do boi gordo, do bezerro e da carne seguem em trajetória de alta, sustentados pela demanda externa aquecida e pela oferta restrita de animais prontos para abate. Este cenário externo favorável contribuiu diretamente para a sustentação dos preços do boi gordo no mercado interno ao longo de março.

Por outro lado, o mercado suinícola enfrenta desafios adicionais. Os preços médios do suíno vivo registraram quedas de até 20% em fevereiro de 2026 nas regiões produtoras no interior de São Paulo, incluindo Piracicaba. O suíno vivo foi negociado à média de R$ 6,91 o quilo em fevereiro deste ano, enquanto no mês anterior o animal era cotado em R$ 8,24 o quilo - uma baixa de mais de 16%.

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Preocupações geopolíticas

Os agentes do setor suinícola estão atentos ao conflito no Oriente Médio, envolvendo principalmente o Irã, que pode se alastrar para outros países. Embora a região não seja um destino importante da carne suína brasileira - principalmente por questões religiosas -, o fechamento de canais de escoamento estratégicos e o consequente aumento nos valores dos fretes e seguros marítimos têm gerado preocupações significativas entre exportadores.

"Resultou em um desarranjo da oferta interna", analisam pesquisadores do Cepea do campus da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, em estudo divulgado na última quarta-feira (4). A combinação de fatores domésticos e internacionais cria um cenário complexo para o mercado de proteínas animais nos próximos meses.