O Banco do Brasil projeta uma recuperação em formato de “W” para o agronegócio, com a inadimplência do setor ainda pressionando os resultados ao longo de 2026. A afirmação foi feita por executivos durante o BB Day, evento que reúne investidores e analistas para apresentar as estratégias da instituição. O banco pretende manter o apetite por crédito ao setor, mas calibrado ao risco, sem abandonar o produtor rural em um ano marcado pela guerra no Oriente Médio e pela previsão de El Niño, fatores que podem afetar parte da produção.
Desafios e perspectivas para 2026
A instituição atravessa um momento desafiador, após registrar queda de 45,4% no lucro em 2025, impactada pela deterioração da carteira do agronegócio, cuja inadimplência avançou 3,86 pontos percentuais em 12 meses. Para 2026, a expectativa é de continuidade da pressão até o fim do primeiro semestre, com início de melhora ao longo da segunda metade do ano.
Segundo o vice-presidente de agronegócio, Gilson Bittencourt, a recuperação da carteira será gradual, já que as novas operações com garantias mais robustas — como imóveis e terras — ainda representam uma parcela minoritária. “Ainda estamos processando a safra anterior, dado que o ciclo do agronegócio é anual. Levará tempo até que a maior parte da carteira esteja lastreada em garantias mais exigentes”, afirmou.
Índice de pagamentos e estratégia de crédito
O banco estima que o índice de pagamentos do agronegócio alcance 95% em 2026, ante 92% em 2025. No melhor momento recente, em 2023, esse indicador chegou a cerca de 99%. A estratégia de concessão de crédito deve evoluir conforme dois fatores-chave para o setor: o cenário geopolítico e as condições climáticas.
De acordo com o vice-presidente de riscos, Felipe Prince, a guerra no Oriente Médio já elevou custos relevantes, com insumos como a ureia subindo até 80%. O impacto, porém, tende a ser mais sentido na safra 2026/2027. Nesse contexto, o banco não descarta ajustar seu modelo de concessão a partir do segundo semestre, quando se inicia o próximo ciclo agrícola. Além disso, o El Niño — que costuma provocar chuvas intensas no Sul e seca na região amazônica — pode pressionar as margens em áreas específicas.
“O Brasil, como um todo, não deve enfrentar uma pressão generalizada de margens. Monitoramos o cenário com atenção, mas sem alarme. O Banco do Brasil seguirá financiando o agro. Nosso objetivo é retornar a níveis de inadimplência próximos de 1%, com uma carteira mais estruturada e sustentável”, disse Bittencourt.
Foco no crédito consignado para pessoa física
No segmento de pessoa física, o foco estará no crédito consignado para trabalhadores do setor privado. Atualmente, o banco detém cerca de 13% desse mercado e pretende alcançar 20% até o fim do ano. “Operamos com taxa média de 3% ao mês, concentrando a concessão em clientes do próprio banco”, afirmou o executivo.
Com essa estratégia, a instituição projeta uma trajetória de recuperação em “W”, conforme destacou o diretor financeiro (CFO), Marco Geovanne Tobias. Segundo ele, ainda não há consenso interno sobre o formato exato da retomada, mas sua avaliação pessoal aponta para um caminho com oscilações antes da estabilização. “Devemos atravessar novos ajustes antes de recuperar plenamente a rentabilidade”, disse. Na visão do CFO, a melhora tende a ocorrer de forma gradual, com foco na construção de uma carteira de crédito mais sustentável no longo prazo.
Em síntese, o Banco do Brasil deve enfrentar um 2026 ainda desafiador, com recuperação lenta no agronegócio e atenção redobrada a um cenário que pode se mostrar ainda mais adverso para a principal carteira de crédito do banco.



