Agronegócio brasileiro em risco: seguro rural é vulnerabilidade crítica do setor
Agronegócio em risco: seguro rural é vulnerabilidade crítica

Agronegócio brasileiro na fronteira do risco: seguro rural é vulnerabilidade crítica

O Brasil tem o hábito de celebrar o agronegócio pelos seus números impressionantes, mas evita discutir profundamente sua estrutura interna e vulnerabilidades. Em 2025, o setor projetou algo próximo de 29,4% do Produto Interno Bruto, a maior participação em 22 anos, segundo estimativa da Confederação Nacional da Agricultura e do Cepea, o centro de estudos da Esalq, com base no primeiro trimestre. É um número que realmente impressiona e demonstra a força do setor.

O problema crucial é que, exatamente no mesmo período, o Banco Central registrava inadimplência recorde no crédito rural, a Serasa Experian documentava uma disparada histórica nos pedidos de recuperação judicial do setor e o Ministério da Agricultura reportava, até novembro de 2025, apenas 2 milhões de hectares segurados em todo o país, ante 7,3 milhões cobertos em 2024. Esses dois mundos aparentemente contraditórios não se anulam, mas se complementam e explicam uma realidade preocupante.

Modelo de negócio sob pressão extrema

O produtor brasileiro não opera simplesmente como agricultor tradicional. Opera como empresário de alta performance num regime de alavancagem tripla e simultânea: intensifica a produção com até três safras por ano e expansão contínua de área; financia custeio, insumos e arrendamento com crédito caro num ambiente de juros elevados; e está exposto, de forma crescente, a eventos climáticos extremos para os quais o mercado de proteção disponível é rudimentar e insuficiente.

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Quando esse sistema complexo funciona adequadamente, entrega escala impressionante, produtividade elevada e competitividade global notável. Porém, quando o clima falha em ambiente de margem apertada, não quebra apenas a safra do momento. A margem bruta da soja, por exemplo, recuou de 62% em 2021 para apenas 13% em 2024. Com esse colchão financeiro tão reduzido, uma safrua ruim não apenas reduz lucro, mas pode eliminar o patrimônio acumulado. A lavoura visível é apenas o ativo aparente, enquanto o passivo acumulado permanece oculto até o momento crítico da renegociação.

Projeto de lei busca solução estrutural

É nesse contexto preocupante que o PL 2.951/2024, de autoria da senadora Tereza Cristina, merece ser analisado com atenção e senso crítico. O projeto foi aprovado terminativamente na CCJ do Senado em dezembro de 2025 e chegou à Câmara com requerimento de urgência da Frente Parlamentar da Agropecuária em fevereiro de 2026. Seu núcleo central é correto e necessário: trata o seguro rural como política de Estado permanente, não como linha orçamentária sujeita ao humor de cada ciclo fiscal.

A proposta amplia o conceito de seguro para além da agricultura tradicional, incorporando pecuária, aquicultura e pesca de forma integrada. Viabiliza o Fundo de Cobertura Suplementar para eventos catastróficos extremos. Cria incentivos concretos para quem contrata seguro e prioriza atividades que reduzem risco ambiental e promovem recuperação ecológica. É uma tentativa séria e estruturada de colocar o seguro onde deveria sempre ter estado: no centro da arquitetura de gestão de risco do setor, não na sua periferia negligenciada.

Riscos do modelo de subsídio pesado

Porém, há um risco significativo no debate que se forma em torno do projeto, e ele precisa ser nomeado com precisão técnica: a tentação de buscar a solução certa pelo caminho errado. A referência óbvia são Estados Unidos e Europa, onde sistemas robustos foram construídos ao longo de décadas. Em 2024, o seguro agrícola americano cobria perto de 89% da área das oito principais culturas, sustentado por política federal consistente.

A Política Agrícola Comum europeia mobiliza mais de 19 bilhões de euros anuais em apoio básico à renda, mais 9,6 bilhões de euros em apoios adicionais, além de instrumentos complementares de gestão de risco. São sistemas realmente robustos, porém construídos para produtores que operam em contextos mais regulados, menos voláteis e historicamente mais dependentes de suporte estatal direto.

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A proteção maior oferecida por esses modelos tem uma contrapartida que raramente aparece no debate brasileiro: autonomia significativamente menor para o produtor. Não é mero detalhe, mas a lógica interna fundamental desses sistemas. A vantagem competitiva do agro nacional está, em parte significativa, exatamente onde esses modelos são mais fracos: na flexibilidade empresarial, na velocidade de adaptação, na liberdade de alocar capital, cultura e área sem tutela burocrática excessiva.

Caminho brasileiro original necessário

O Brasil precisa desenvolver uma arquitetura financeira original, desenhada especificamente para o produtor que efetivamente tem: dinâmico, alavancado, orientado a mercado e geograficamente diverso. Seguro paramétrico em escala, com pagamento automático por índice climático, sem a burocracia que torna o instrumento inútil quando mais se precisa dele. Derivativos climáticos que permitam ao produtor fazer hedge de clima com a mesma sofisticação com que já opera câmbio e commodities.

Integração real entre seguro, crédito e mercado de capitais, com Fiagros e CPRs estruturadas funcionando como mecanismo de absorção de risco, não apenas de captação simples. E, acima de tudo, que bancos, seguradoras, resseguradoras e o mercado de capitais parem de tratar o agro como setor simples e comecem a precificar sua complexidade real de forma honesta e transparente.

O papel do Estado nesse sistema deve ser preciso e limitado: não garantir o resultado individual do produtor, mas garantir que o sistema financeiro funcione adequadamente. Subvenção previsível, fundo de catástrofe adequadamente capitalizado, dados públicos acessíveis para modelagem atuarial confiável, regulação que favoreça a entrada de capital privado e internacional no resseguro. O PL 2.951 aponta nessa direção promissora, mas sua aprovação é apenas o começo da conversa necessária, não o encerramento definitivo dela.

O agronegócio brasileiro já aprendeu a produzir sob condições de incerteza climática e econômica. O que falta agora, urgentemente, é construir os instrumentos financeiros sofisticados para financiar e gerenciar adequadamente essa incerteza constante, protegendo tanto os produtores quanto a segurança alimentar e econômica do país.