Acordo comercial deve transformar relação entre Brasil e União Europeia no setor calçadista
O acordo de cooperação entre União Europeia e Mercosul, assinado provisoriamente em janeiro no Paraguai, promete revolucionar as exportações brasileiras de calçados. Segundo um estudo de impacto realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as vendas para os 27 países do bloco europeu devem crescer impressionantes 62% nos próximos 15 anos, graças à isenção tarifária gradual prevista no acordo.
União Europeia: parceiro estratégico em expansão
Atualmente, a União Europeia já representa um destino importante para o calçado brasileiro, respondendo por 10% de todas as exportações do setor. Em 2025, o Brasil faturou US$ 105,2 milhões com a venda de 17,5 milhões de pares para o bloco econômico, com destaque para Portugal, Itália, Alemanha e Espanha como principais mercados consumidores.
"Esses mercados detêm 40% de todos os calçados importados no mundo. É um bloco de significância muito grande", afirma Priscila Linck, economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).
A especialista explica que, apesar de um desaquecimento recente em alguns países europeus, o setor brasileiro conseguiu realocar volumes para outros destinos dentro do próprio continente, como a Espanha, demonstrando a resiliência e adaptabilidade da indústria nacional.
Benefícios concretos para os polos produtivos
Os ganhos com o acordo devem ser sentidos especialmente nos grandes polos calçadistas do país:
- Franca (SP): tradicional centro produtor de calçados femininos de couro
- Vale dos Sinos (RS): responsável por 46% das exportações nacionais de calçados
- Nova Serrana (MG): importante polo de calçados masculinos
Priscila Linck destaca que "além de estar reduzindo tarifa de um produto que a gente já tem predominância em exportar, que é o calçado de couro, esses polos se beneficiam muito porque são regiões com uma concentração grande de produtos de couro".
Isenção tarifária: cronograma e impactos
Um dos pontos centrais do acordo é a eliminação gradual das tarifas de importação. Para os calçados brasileiros, que atualmente enfrentam taxação de 3,5% a 17% nos países europeus, a previsão é de isenção total em até dez anos.
Os produtos de couro, que representam 44% das exportações brasileiras para a Europa e são taxados em 7%, terão acesso livre ao mercado europeu em sete anos. "O principal produto que a gente já exporta para o mercado vai ter um prazo de desgravação mais rápida. Isso é positivo para que a gente consiga alavancar as exportações desse segmento", analisa a economista da Abicalçados.
Diversificação e fortalecimento da cadeia produtiva
Além do couro, o acordo abre oportunidades para outros materiais:
- Calçados sintéticos: hoje representam mais de 47% das exportações
- Produtos têxteis: correspondem a 8% das vendas externas
- Materiais plásticos e de borracha: ganham espaço nas negociações
"Se abre um espaço de oportunidade para a gente consolidar ainda mais os nossos embarques de calçados de couro, mas também de diversificar e entrar com mais força em outros segmentos", complementa Priscila.
Desafios e pontos de atenção
O setor calçadista brasileiro mantém uma preocupação importante: a possibilidade de triangulação de produtos asiáticos através da Europa. "O maior risco que, desde o início foi mapeado, é esse e não com relação ao produto europeu", alerta a especialista.
Para evitar que calçados produzidos na Ásia entrem no Brasil como se fossem europeus, beneficiando-se das isenções tarifárias, o acordo estabelece regras rigorosas de origem dos produtos. "Foram construídas regras de origem que de alguma forma tentam atenuar esse risco", explica Priscila.
Próximos passos e perspectivas
Para entrar em vigor definitivamente, o acordo ainda precisa ser aprovado por cada país do Mercosul. No início do mês, o presidente Lula encaminhou o documento para análise do Congresso Nacional.
Além dos ganhos econômicos diretos, a economista da Abicalçados espera que o acordo traga maior previsibilidade nas negociações internacionais. "É um impulso para que a gente consiga alavancar as nossas exportações para esses mercados, ou seja, de a gente conseguir alternativas para alavancagem da nossa exportação frente a um cenário de instabilidade".
Com a redução das barreiras tarifárias e a diversificação dos produtos exportados, o setor calçadista brasileiro se prepara para uma nova fase de inserção no mercado internacional, fortalecendo sua posição diante de concorrentes globais e criando oportunidades de crescimento para toda a cadeia produtiva.



