Após 30 anos, acordo histórico encerra maior conflito agrário do Paraná
Acordo encerra maior conflito agrário do Paraná após 30 anos

Três décadas de disputa chegam ao fim com acordo histórico no Paraná

Após exatos trinta anos de intensas disputas judiciais e sociais, o maior e mais antigo conflito fundiário do estado do Paraná finalmente foi encerrado através de um acordo histórico entre o Governo Federal e as empresas Rio das Cobras Ltda. e Araupel S.A. A conciliação, celebrada com mediação da Advocacia-Geral da União (AGU), representa um marco na história da reforma agrária brasileira e trará benefícios diretos para mais de três mil famílias de agricultores estabelecidas nos municípios de Quedas do Iguaçu e Rio Bonito do Iguaçu, localizados na região oeste do estado.

Detalhes do acordo que transforma realidades

O acordo estabelece que mais de 33 mil hectares de terras ficarão disponíveis para a instalação de novas famílias de agricultores, ampliando significativamente as possibilidades de assentamento rural na região. Em contrapartida, o grupo empresarial receberá uma indenização no valor de R$ 584 milhões, que será paga através de precatórios federais, referente às terras da Gleba Pinhal Ralo que foram adquiridas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). As empresas manterão a posse de 680 hectares, que serão destinados exclusivamente para atividades industriais e projetos de desenvolvimento regional.

Emoção e esperança entre as famílias beneficiadas

Jonas Fures, morador do acampamento Dom Tomás Balduíno formado em 2015 dentro do território abrangido pelo acordo, descreve o momento com profunda emoção. "É um dia muito especial, talvez seja o dia mais esperado nesses últimos dez anos. É onde as famílias almejam chegar, com a solução definitiva do conflito. Já começamos a sonhar com outras coisas, com um futuro melhor, e também a planejar a vida de assentado e não mais de acampado", afirma com esperança renovada.

Sandra Padilha Alves, que está entre as milhares de famílias que ocuparam a área e formaram a comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio há onze anos, compartilha sentimentos similares. "Estou desde o início do acampamento, onde conquistamos um pedaço de terra. Trabalho com minha família na produção de hortaliças e estou começando um horto medicinal. Não tem como descrever a emoção deste dia. Temos muito o que comemorar", relata a agricultora que viu sua luta finalmente ser reconhecida.

Origens históricas do conflito agrário

O conflito agrário envolvendo as terras da madeireira Giacomet-Marodin, posteriormente renomeada como Araupel S.A., teve início emblemático no dia 17 de abril de 1996, em Rio Bonito do Iguaçu. Durante a madrugada daquela data histórica, mais de doze mil homens, mulheres e crianças ocuparam parte da área da empresa madeireira. A simbólica quebra do cadeado da porteira de uma das maiores fazendas do Sul do Brasil foi imortalizada pelo renomado fotógrafo Sebastião Salgado, que batizou a imagem como "A luta pela terra: a marcha de uma coluna humana".

Desde então, o território passou a ser considerado uma das maiores áreas contínuas de reforma agrária da América Latina, estendendo-se pelos municípios de Rio Bonito do Iguaçu, Nova Laranjeiras, Espigão Alto do Iguaçu e Quedas do Iguaçu. Em agosto de 1997, o Incra formalizou a criação do assentamento Ireno Alves dos Santos, com 900 famílias, nas terras do acampamento Buraco, que se tornou o maior assentamento do Brasil até 2003.

Longa trajetória judicial

Em 2014, uma ação judicial movida pelo Incra contestou a validade dos títulos do imóvel localizado entre Rio Bonito do Iguaçu e Quedas do Iguaçu. Três anos depois, em agosto de 2017, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) declarou nulos os títulos de propriedade da madeireira sobre as áreas ocupadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entendendo que as terras, na verdade, pertenciam à União e haviam sido cedidas de forma irregular.

A Araupel S.A., contatada para comentar o acordo histórico, optou por não se manifestar sobre o assunto, encerrando assim um capítulo de três décadas que marcou profundamente a história agrária do Paraná e do Brasil.