Governo de São Paulo ameaça cancelar contrato do BRT-ABC por atrasos nas obras
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), anunciou na última sexta-feira (13) que o governo estadual deve abrir um processo para decretar a caducidade do contrato com a Next Mobilidade (ex-Metra), empresa responsável pela construção do BRT do ABC Paulista. O corredor de ônibus, que promete ligar cidades da Grande São Paulo à capital paulista, começou a ser construído em 2022 e deveria ter sido entregue em 2023, mas continua incompleto.
Frustração com os prazos não cumpridos
Em declarações firmes, Tarcísio de Freitas expressou sua insatisfação com a situação. "A gente deve tomar medidas mais firmes. Eu acho que a gente deve encaminhar pra uma decretação de caducidade. A gente tem um acordo que não está sendo honrado, não tá sendo cumprido", afirmou o governador. Ele destacou que houve uma prorrogação do contrato de concessão baseada na promessa de investimentos no BRT, mas o projeto "não tá andando, tá muito aquém do esperado".
Segundo Tarcísio, há uma nova postergação no prazo de entrega do sistema. "E a gente tá vendo mais uma postergação de prazo, então aquele compromisso que nós tínhamos pra esse ano inclusive, que era pra iniciar a operação ainda que com uma transferência pra linha 2 não vai ser… Eles não vão honrar, não vão conseguir executar, então não nos resta outra alternativa senão partir pra uma medida mais firme com relação a esse contrato", declarou.
Obras em andamento com previsão para outubro
O BRT-ABC foi iniciado em 2022, durante a gestão do então governador João Doria (PSDB), e está significativamente atrasado. O sistema, que deve conectar São Bernardo do Campo à capital passando por outras cidades, tem sua entrega prevista apenas para o segundo semestre deste ano, provavelmente em outubro, próximo às eleições para o governo paulista.
Em nota, a Next Mobilidade informou que as obras seguem em andamento com cerca de 900 trabalhadores atuando em dois turnos, inclusive aos finais de semana. A empresa afirmou que os primeiros 20 ônibus elétricos de alta capacidade, de um total de 92 previstos, já estão na concessionária para testes.
Justificativas para os atrasos
A concessionária destacou que as intervenções começaram conforme a liberação das licenças ambientais necessárias e a execução de serviços por empresas como Sabesp, Comgás, Enel, Petrobras e SP Águas. Segundo a Next Mobilidade, "houve atrasos na execução de serviços sob responsabilidade dessas concessionárias", citando exemplos como a remoção de rede elétrica na Praça dos Andarilhos, que levou cerca de 510 dias e foi concluída em 9 de março de 2026.
Outros casos mencionados foram a remoção de redes aéreas na Rua Abraão Braga, com atraso de 503 dias, e na Rua do Grito, na capital, com atraso de 499 dias. A empresa se considerou reconhecida pelos serviços prestados aos usuários, mencionando pesquisas e premiações.
Fiscalização e medidas contratuais
A Enel Distribuição São Paulo afirmou que "vem se reunindo semanalmente com a área técnica do BRT-ABC e realizando as entregas conforme prioridades definidas pelo cliente". Já a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) disse acompanhar e fiscalizar a execução das obras desde o início de 2025, quando assumiu a responsabilidade pelo contrato.
A agência identificou atrasos na execução das obras e nos investimentos previstos, iniciando providências como notificações, aplicação de penalidades e outras medidas contratuais.
Detalhes do projeto e investimentos
A construção do BRT faz parte de um pacote de investimentos e melhorias no transporte metropolitano gerenciado pela EMTU no ABC, após a prorrogação por 25 anos do contrato de concessão com a Metra. Cerca de R$ 237 milhões devem ser investidos na reforma do corredor (São Mateus–Jabaquara), incluindo:
- Atualização da sinalização viária
- Manutenção das escadas rolantes
- Reconfiguração dos terminais com nova iluminação
- Instalação de gradis e melhorias de acessibilidade
- Implantação de rampas e modernização das paradas
- Restauração do pavimento rígido
Com 16 estações de parada e três terminais, o BRT-ABC prevê uma frota de 82 ônibus elétricos e articulados, de 23 metros, com ar-condicionado, silenciosos e não poluentes. A expectativa é que o percurso entre o Terminal São Bernardo e o Terminal Sacomã, na capital, seja feito em 40 minutos na modalidade expressa.
Substituição do monotrilho e histórico
Ainda na gestão Doria, o BRT do ABC foi utilizado como justificativa para substituir o projeto do monotrilho da Linha 18-Bronze. Alegando inviabilidade do plano elaborado na administração do ex-governador Geraldo Alckmin (PSB), Doria encerrou os planos da linha, que também ligaria a capital aos municípios do ABC paulista.
O fim do projeto deixou uma dívida de R$ 335 milhões do governo paulista com a concessionária responsável pela obra. As partes entraram em litígio contratual, encerrado após acordo firmado pela atual gestão estadual no ano passado, com o governo Tarcísio concordando com o pagamento milionário.



