Ex-funcionários enfrentam dificuldades financeiras após denúncia de irregularidades trabalhistas em obra de parque linear
Um grupo composto por 16 ex-funcionários de uma empresa de construção civil está denunciando a falta de pagamento de salários e demais direitos trabalhistas referentes ao trabalho realizado na construção de um parque linear na praia municipal de Pereira Barreto, localizada no interior do estado de São Paulo. Os trabalhadores afirmam estar enfrentando sérias dificuldades financeiras devido à situação.
Período de trabalho e demissões com pagamentos incompletos
Os profissionais atuaram em diversas etapas da obra entre os dias 3 de março de 2025 e 13 de fevereiro de 2026. Após serem demitidos, parte deles recebeu apenas metade do valor da rescisão contratual, enquanto nove trabalhadores não haviam recebido nenhum pagamento até o momento da última atualização desta reportagem.
Esses nove funcionários alegam que a empresa não realizou o depósito do salário proporcional do mês trabalhado, do aviso prévio indenizado, das férias proporcionais acrescidas do terço constitucional, dos depósitos regulares do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), do pagamento da multa rescisória, entre outras verbas trabalhistas devidas por lei.
Relato de irregularidades administrativas
Em entrevista concedida ao g1, a assistente administrativa Gabriela Pereira de Santana afirmou que as irregularidades começaram a ser percebidas no ano passado. A ex-funcionária relata ter sido contratada pela empresa Innovatore Engenharia, que era terceirizada da Companhia Energética de São Paulo (Cesp), posteriormente incorporada à Auren Energia, e era responsável pela parte administrativa da obra.
"No meio do ano passado, percebemos que as parcelas do FGTS não estavam sendo depositadas. Questionamos o contato da central, que disse que, ao final do contrato, tudo seria pago integralmente, porém não foi o que aconteceu", explica Gabriela.
Posicionamento das empresas envolvidas
A reportagem entrou em contato com a Innovatore Engenharia, que confirmou a existência de pendências relacionadas às verbas rescisórias dos ex-funcionários. A empresa informou ter tentado negociar um acordo com os trabalhadores, mas, segundo seu posicionamento, a proposta apresentada não foi aceita pelos profissionais.
Os funcionários, por sua vez, relatam que, inicialmente, quando reclamaram da falta de pagamento, foram orientados a buscar seus direitos na Justiça. Segundo Gabriela, em dezembro de 2025, sete funcionários foram dispensados, pois a obra estava prestes a ser entregue. Após muita insistência, eles receberam 50% do valor da rescisão, mas nenhum valor referente ao FGTS.
No dia 13 de fevereiro, os outros nove trabalhadores foram desligados e ainda não conseguiram receber qualquer valor. Indignados com a situação, começaram a expor o problema nas redes sociais para dar visibilidade ao caso, mas receberam uma notificação extrajudicial solicitando a remoção das publicações.
"Quando eles [empresa] viram que eu estava divulgando nas redes sociais e apareceram mais pessoas de outros lugares reclamando, entraram em contato com nosso advogado para tentar uma negociação. Eu até parei de postar, porque a negociação estava em andamento. Dias depois, eles disseram que a Auren sumiu, não iam nos pagar e bloquearam nosso advogado", conta a ex-funcionária.
Justificativas empresariais e impacto nos trabalhadores
A terceirizada também afirmou que o pagamento integral dos valores dependia da liberação de recursos pelo cliente final, ou seja, a Auren Energia, o que não ocorreu no prazo esperado, dificultando o cumprimento das obrigações trabalhistas.
Por sua vez, a Auren Energia esclareceu, em nota oficial, que está cobrando providências para que a situação dos trabalhadores seja regularizada e afirmou que os pagamentos e obrigações contratuais junto à empresa Innovatore estão regularizados.
Consequências financeiras e ação judicial
Segundo Gabriela, muitos trabalhadores foram prejudicados pelas divergências entre as empresas envolvidas. Ela relata que eles estão pagando juros devido às contas atrasadas e dependem da ajuda de familiares para sobreviver.
"Nós temos filhos, família, precisamos comer. Por mais que tenhamos rede de apoio, não é justo passarmos por isso. Nós trabalhamos, merecemos receber. Trabalhadores merecem dignidade", lamenta a ex-funcionária.
Revoltados com a situação, os trabalhadores acionaram um advogado, que ajuizou uma ação coletiva contra a empresa terceirizada. No entanto, eles temem que a decisão judicial leve muito tempo ou que não consigam receber seus direitos trabalhistas de forma integral.
Contexto da obra do parque linear
Segundo apurado pelo g1, a obra do parque linear foi realizada na praia municipal Pôr do Sol. A construção integra um acordo entre a Cesp e a Prefeitura de Pereira Barreto, baseado em uma determinação do Ministério Público.
Como pagamento de uma indenização por danos ambientais, a Justiça deliberou que a Cesp construísse o parque em benefício da população local. A reportagem tentou contato com a prefeitura do município, porém não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
Notas oficiais das empresas
Innovatore Engenharia: "A Innovatore informa que reconhece a existência de discussão relacionada às verbas rescisórias dos ex-empregados vinculados à obra de implantação do parque linear no município de Pereira Barreto (SP). A empresa esclarece que, ao término da execução contratual, foram mantidas tratativas com os trabalhadores para buscar uma solução consensual para a regularização dos valores em debate, tendo sido apresentada proposta de composição, a qual não foi aceita. Esclarece, ainda, que a quitação integral das verbas discutidas dependia da liberação dos recursos pelo cliente final, providência que não ocorreu no momento oportuno, circunstância que impactou o adimplemento das obrigações correlatas. A Innovatore reafirma seu compromisso com o cumprimento da legislação trabalhista aplicável e permanece à disposição para colaborar com o esclarecimento dos fatos pelos meios adequados."
Cesp/Auren Energia: "A CESP esclarece que está em dia com todas as suas obrigações contratuais junto à empresa terceirizada contratada para a execução de uma obra no município de Pereira Barreto (SP), inclusive no que se refere aos pagamentos pertinentes. A Companhia reforça que preza pelas melhores práticas do mercado em gestão de pessoas e informa que está acompanhando o caso junto à empresa terceirizada, cobrando a adoção das medidas necessárias para a regularização da situação dos trabalhadores."



