Moradores de Salto (SP) sofrem há décadas com falta de infraestrutura urbana básica
Salto (SP): moradores pagam IPTU mas vivem sem asfalto e esgoto

Moradores de Salto (SP) enfrentam décadas de abandono em bairros sem infraestrutura básica

Há mais de quatro décadas, os moradores de um conjunto de bairros em Salto, no interior de São Paulo, pagam o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) como se residissem em uma área plenamente urbanizada. No entanto, a realidade é completamente diferente: eles vivem sem infraestrutura básica, como asfalto e rede de esgoto, em uma situação que especialistas classificam como segregação socioespacial.

Problemas diários e riscos à saúde

Os bairros afetados são Arquidiocesano, Maracajás e Iracema. A falta de serviços essenciais causa transtornos cotidianos graves. As ruas de terra se tornam intransitáveis em dias de chuva, dificultando o acesso de ônibus e, principalmente, de ambulâncias em casos de emergência.

"As ruas são de terra e pedras e fica muito difícil transitar por elas. As vias danificam os veículos e os ônibus não chegam até os locais na maioria das vezes", relata Elaine Cristina, residente na área. Ela acrescenta que a situação é tão crítica que a van da empresa onde sua filha trabalha se recusou a buscá-la diariamente.

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Jailson Alves, de 66 anos e reconhecido como líder comunitário, destaca o perigo em situações de saúde: "É difícil até mesmo chegar ao hospital. As ambulâncias não entram aqui. Temos um grupo no WhatsApp para emergências, no qual vizinhos ajudam vizinhos".

Promessas não cumpridas e projeto paralisado

Entre 2022 e 2023, a prefeitura chegou a anunciar em seu site um projeto de mais de R$ 2 milhões para levar infraestrutura aos bairros. A primeira gestão apresentou o projeto e a segunda confirmou sua execução. Contudo, segundo os moradores, nada avançou desde então.

"O projeto foi elaborado pela engenharia, que prevê toda a infraestrutura necessária, como instalação de esgoto e água tratada. No entanto, o projeto foi pausado. Por isso, pedimos socorro e ajuda", explica Jailson.

Um morador, que preferiu não se identificar, afirma que, nos poucos trechos onde a pavimentação foi realizada, a má qualidade e a ausência de manutenção já causam problemas. "O serviço está sendo destruído pela chuva e, em breve, estaremos com a rua de terra novamente. Muitos blocos intertravados estão soltos na rua, colocando em risco o trânsito de veículos, motos e pedestres".

Crescimento populacional e falta de saneamento

Jailson conta que a luta por melhorias é antiga, remontando à criação de uma associação em 1999. "Isso foi se prolongando, passando gestões e gestões, e não houve melhorias. Nunca se fez nada", lamenta.

A situação se agravou com o crescimento da população, que triplicou desde a pandemia, chegando a cerca de 500 famílias atualmente. "Apesar de ser considerada uma área urbana desde 1981, a região ainda é tratada como área rural. Quem não tem caminhonete não consegue circular. Os ônibus não passam e o transporte escolar não está circulando", diz o líder comunitário.

Em Salto, o saneamento básico e os serviços de água e esgoto são executados pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae). A falta de rede de esgoto obriga os moradores a construírem fossas por conta própria, o que gera riscos ambientais. "No meu ponto de vista, isso é muito grave. A maioria constrói fossas que acabam contaminando o solo", relata outro residente.

"Política da invisibilidade" e segregação

Para Vidal Mota, doutor em políticas públicas pela Unicamp, a situação reflete a segregação socioespacial, onde populações mais pobres são concentradas em áreas com menos infraestrutura e atenção do poder público. "Em políticas públicas, observamos que as prefeituras costumam adotar uma lógica de 'centro-periferia'. Investimentos em áreas centrais são vistos como 'vitrine', enquanto as periferias entram em uma fila de espera eterna", reforça o especialista.

Segundo ele, essa falha na governança é conhecida como "política da invisibilidade". "É a prática de ignorar a existência, as necessidades e os direitos de uma parcela da população para manter uma estética urbana de 'primeiro mundo' ou para evitar o enfrentamento de problemas estruturais", finaliza.

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Mota explica que a falta de saneamento e de pavimentação vai muito além de um problema estético: ela se torna um verdadeiro bloqueador de direitos, afetando a saúde, a mobilidade e a qualidade de vida. "Quando o ônibus não passa e o saneamento inexiste, o Estado está dizendo àqueles cidadãos que eles pertencem a uma categoria inferior de prioridade orçamentária", pontua.

Respostas dos órgãos públicos

O g1 procurou a Prefeitura de Salto, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem. Em nota, o Saae informou que a expansão do sistema de saneamento para a região está incluída no Plano Municipal de Saneamento deste ano e que planeja a instalação a longo prazo.

Jailson lembra que, em 2016, procurou o Ministério Público. Na época, o Saae alegou que o projeto era inviável financeiramente e que um estudo seria feito em até dez anos, prazo que já se esgotou sem avanços concretos.