Licitação do transporte público de Campinas avança com entrega de propostas após década de impasses
Licitação do transporte de Campinas avança após 10 anos

Licitação do transporte público de Campinas avança com entrega de propostas após década de impasses

Consórcios interessados em operar o transporte público de Campinas, no interior de São Paulo, entregaram nesta quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026, os envelopes com propostas na sede da B3, em São Paulo. Com essa etapa concluída, a licitação, estimada em impressionantes R$ 11 bilhões por um período de 15 anos, finalmente avança após uma longa década de impasses, adiamentos e revisões judiciais que mantiveram a população em suspense.

Etapas do processo licitatório detalhadas

O processo licitatório está meticulosamente dividido em três etapas fundamentais, cada uma com seu propósito específico e cronograma rigoroso:

  1. Envelope 1 – Credenciamento e garantias: Esta fase inicial, concluída nesta quarta-feira, envolve a verificação da documentação que comprova a habilitação inicial e as garantias financeiras dos consórcios interessados. A B3 agora analisará se as empresas cumprem todos os requisitos técnicos e legais para seguir na disputa acirrada.
  2. Envelope 2 – Propostas de valores: Marcada para 5 de março de 2026, às 11h, na sede da B3 em São Paulo, esta etapa crucial incluirá a abertura dos valores ofertados para a concessão e a apresentação de lances competitivos. A sessão será transmitida ao vivo pelo site oficial tvb3.com.br, garantindo transparência total ao processo.
  3. Envelope 3 – Documentação de habilitação final: Aberto somente após a atualização da proposta vencedora, serve para confirmar definitivamente se a empresa ou consórcio atende todas as exigências legais e técnicas exigidas pelo edital. A ausência de pendências resultará na conclusão do processo e na oficialização da vencedora.

Investigação do Ministério Público sobre possível fraude

Em meio ao avanço do processo, o Ministério Público Estadual de São Paulo (MP-SP) informou que está analisando ativamente uma denúncia grave de tentativa de fraude ao processo licitatório, supostamente envolvendo a formação de cartel entre empresas. O órgão mantém um procedimento de acompanhamento aberto que envolve promotores cíveis do MP de Campinas, demonstrando a seriedade com que trata a questão.

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O Centro de Apoio à Execução (Caex), órgão especializado do MP que fornece suporte investigativo através de estudos, pesquisas e perícias técnicas, já finalizou um parecer detalhado sobre o assunto. Este documento será minuciosamente analisado pelos promotores, que também aguardam a entrega dos envelopes para uma avaliação completa da situação.

Adiamentos e correções no processo

A abertura dos envelopes ocorre após um significativo adiamento de 15 dias em relação ao prazo inicial, determinado após o Tribunal de Contas do Estado (TCE) notificar a prefeitura sobre inconsistências técnicas no processo. De acordo com a Secretaria de Transportes (Setransp), a decisão foi tomada após o TCE apontar problemas no cálculo do Fator de Utilização (FU) e no valor dos benefícios trabalhistas, que não contemplavam integralmente os encargos aplicáveis.

Em nota oficial, o TCE esclareceu que o Conselheiro Dimas Ramalho, relator do processo, "reconheceu que a Prefeitura adotou medidas adequadas para corrigir o edital, ao entender que não havia mais risco", determinando assim o arquivamento do processo e dando sinal verde definitivo para a licitação prosseguir.

Detalhes do investimento e estrutura da concessão

O edital de licitação prevê a concessão do sistema de transporte coletivo convencional por um período extenso de 15 anos, com possibilidade de prorrogação por mais cinco anos. A estrutura está organizada em dois eixos principais que abrangem todas as regiões da cidade:

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  • Lote Norte: Atenderá as regiões Norte, Oeste e Noroeste de Campinas.
  • Lote Sul: Cobrirá as regiões Leste, Sul e Sudoeste da metrópole.

Para a construção do edital final, a prefeitura analisou cuidadosamente mais de 1.100 contribuições apresentadas pela população durante a consulta pública, realizada entre 2 de abril e 2 de julho. A administração municipal enfatiza que a licitação "adota princípios sólidos de equilíbrio econômico-financeiro e consolida a separação clara entre tarifa pública (paga pelo usuário) e tarifa de remuneração (paga ao operador)".

Os investimentos planejados são monumentais: a renovação da frota de ônibus exigirá aproximadamente R$ 900 milhões nos primeiros cinco anos de contrato, seguidos por mais R$ 800 milhões ao longo dos dez anos restantes, totalizando R$ 1,7 bilhão em 15 anos. Adicionalmente, haverá investimentos em tecnologia embarcada e modernização de terminais e estações, elevando o investimento total para impressionantes R$ 1,9 bilhão.

Histórico complexo de uma década

Inicialmente prevista para março de 2016, esta nova licitação foi aguardada com ansiedade porque o Tribunal de Contas do Estado (TCE) avaliou como irregular a concorrência anterior de 2005. Segundo o tribunal, as empresas não poderiam ter passado adequadamente pelo sistema de avaliações técnicas dentro da licitação de preços daquela época.

Em agosto de 2019, a prefeitura lançou a primeira versão do edital, mas o documento foi suspenso pelo TCE apenas dois meses depois e acabou barrado pela Justiça em novembro daquele mesmo ano. Com a anulação da licitação de 2005, que venceu em 2020, a definição do novo contrato transformou-se em uma verdadeira "novela" administrativa e jurídica.

A administração municipal recomeçou então todo o processo para consolidar um novo edital, publicado em dezembro de 2022. Em março de 2023, o processo foi novamente interrompido pelo TCE após contestação pelo sindicato das empresas do segmento (Setcamp). Em maio de 2023, o TCE-SP determinou a reformulação do edital com correções em 14 itens específicos para que o processo pudesse ser retomado com segurança jurídica.

A licitação ocorreu finalmente em 20 de setembro de 2023, mas foi declarada deserta porque nenhuma empresa apresentou oferta para a concessão naquele momento. Com esse revés, a prefeitura recomeçou o processo licitatório do zero, abrindo em outubro de 2023 uma segunda consulta pública que recebeu 131 manifestações da população.

Em junho de 2024, a administração municipal nomeou um Grupo de Trabalho Intersecretarial especializado para conduzir a nova licitação do transporte coletivo. Por fim, em dezembro do ano passado, foram realizadas audiências públicas para apresentar à população a nova proposta de edital, fechando um ciclo de uma década de preparação e ajustes.