Especialista da USP detalha como caças supersônicos vão reforçar defesa das fronteiras brasileiras
O professor Fernando Martini Catalano, diretor da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP), destacou em entrevista exclusiva a importância estratégica dos novos caças supersônicos para a proteção das extensas fronteiras do Brasil. Em conversa com a EPTV, afiliada da TV Globo, o especialista enfatizou que o diferencial dessas aeronaves vai muito além da velocidade impressionante.
Tecnologia inteligente como principal aliado
"Não é um avião para provocar a guerra, mas sim para fazer com que não queiram fazer guerra com a gente ou não queiram invadir as nossas fronteiras", afirmou Catalano durante a entrevista. O acadêmico ressaltou que a verdadeira revolução está nos sistemas avançados de operações inteligentes que equipam essas aeronaves de última geração.
Na última quarta-feira (25), o primeiro caça supersônico F-39E Gripen produzido em solo brasileiro foi apresentado oficialmente nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto, interior de São Paulo. Esta aeronave, desenvolvida pela empresa sueca Saab, representa um marco tecnológico para a defesa nacional com sua capacidade operacional multifuncional.
Características técnicas impressionantes
Embora o termo "supersônico" naturalmente atraia atenção, Catalano lembrou que o Brasil já operou aeronaves com essa capacidade no passado. Uma aeronave supersônica é capaz de voar a velocidades superiores à do som, que corresponde a aproximadamente 1,2 mil quilômetros por hora. O F-39 Gripen, no entanto, alcança impressionantes 2,4 mil quilômetros por hora, dobrando essa marca fundamental.
"O que muda é a tecnologia que vem junto, sistemas de operações inteligentes. É uma caça de geração mais avançada que detém a capacidade de voo supersônico e de interceptação", explicou o professor da USP. A grande transformação, segundo ele, está nos data links – sistemas sofisticados de comunicação criptografada que permitem troca de informações em tempo real entre a aeronave e outros ativos de defesa.
Sistemas integrados para um país continental
Para um território de dimensões continentais como o Brasil, a velocidade de resposta representa fator determinante na eficácia defensiva. "Saber onde estão os problemas, chegar rápido no conflito, ter uma solução mais inteligente para não ter uma destruição maior e saber qual que é o objetivo, qual que é o target de chegar e ter uma ação", detalhou Catalano.
O especialista enfatizou que "o sistema eletrônico, o sistema de Data Link que vem junto com caça dessa geração, é a coisa mais importante que a gente pode ter" para uma defesa territorial abrangente e eficiente. Esta tecnologia permite coordenação precisa entre diferentes elementos das forças armadas, criando uma rede defensiva integrada.
Parceria estratégica com a indústria nacional
Um aspecto fundamental nesta evolução da defesa brasileira é a parceria estabelecida com a indústria aeronáutica nacional. Catalano destacou que a Embraer – reconhecida como terceira maior empresa de aviação do mundo – possui plena capacitação para absorver essas tecnologias de ponta, especialmente através dos contratos de offset (compensação tecnológica).
O Brasil adquiriu um total de 36 caças F-39E Gripen, sendo que além da unidade apresentada na quarta-feira, outras 14 aeronaves serão produzidas em território nacional. Este acordo inclui transferência de tecnologia sueca e participação direta de engenheiros brasileiros em todo o processo produtivo, fortalecendo a autonomia tecnológica do país.
Complexidade técnica e capacitação industrial
Catalano explicou que o desafio vai muito além da estrutura física necessária para suportar altas velocidades. A verdadeira complexidade reside na integração perfeita entre radares, sistemas de comunicação e armamentos, criando uma plataforma de combate coesa e eficaz.
Através desta transferência tecnológica, a indústria nacional adquire conhecimento valioso para desenvolver projetos próprios no futuro, consolidando o portfólio brasileiro que já inclui sucessos internacionais como o cargueiro KC-390 e o treinador Super Tucano. O novo caça supersônico representa mais um passo na consolidação do Brasil como player relevante no cenário aeronáutico global.



