Fim da era dos orelhões no Rio Grande do Sul: 97 municípios manterão serviço até 2028
Você certamente já notou: os icônicos orelhões estão se tornando cada vez mais raros nas ruas do Rio Grande do Sul. Embora a retirada dos telefones públicos esteja programada em todo o território nacional, 97 municípios gaúchos continuarão com o serviço disponível até dezembro de 2028, uma vez que não possuem cobertura adequada de telefonia móvel. As informações são da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que monitora a situação em todo o país.
Situação atual dos telefones públicos no estado
No Rio Grande do Sul, ainda existem 155 telefones de uso público obrigatórios, conforme determinação regulatória. Desse total, apenas 59 estão ativos e em funcionamento, enquanto 74 encontram-se em processo de manutenção e 22 não têm informações atualizadas sobre seu status operacional. "As concessionárias foram obrigadas a manter os orelhões apenas nas localidades onde não há outro serviço de voz substituto, como a telefonia celular", explica Marcos Carozza, gerente de Controle de Obrigações e Universalização da Anatel.
Porto Alegre: símbolos abandonados e pichados
Na capital gaúcha, restam apenas três orelhões, todos em estado deplorável: pichados, quebrados e completamente fora de funcionamento. Um desses aparelhos remanescentes está localizado na Avenida Osvaldo Aranha, no Centro de Porto Alegre, em frente ao prédio onde trabalha o zelador Carlos Abbadi. "Acho que vai acabar tudo. É uma pena", lamenta Abbadi, que durante uma década instalou mais de 400 equipamentos em diversas cidades do estado.
Abbadi descreve com nostalgia o processo de instalação: "Primeiro fazia a base, deixava o cimento secar. Depois vinha, colocava o telefone e puxava a rede". Cada orelhão levava, em média, dois dias para ser completamente instalado e colocado em operação.
História e simbolismo dos orelhões gaúchos
O primeiro orelhão do Rio Grande do Sul foi instalado em março de 1973, na histórica Praça da Alfândega, em Porto Alegre. Na época, o serviço era operado pela Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT), e as ligações eram realizadas utilizando fichas telefônicas.
O design arredondado que se tornou símbolo dos telefones públicos em todo o Brasil foi criado pela talentosa arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira em 1971, quando ela chefiava o Departamento de Projetos da companhia telefônica. Seu projeto revolucionário combinava funcionalidade com estética urbana.
Impacto social e econômico do desaparecimento
Para parte significativa da população idosa, o fim dos orelhões representa não apenas uma mudança tecnológica, mas um impacto financeiro e de acessibilidade considerável. Maria Filomena Rodrigues, aposentada residente da Zona Norte de Porto Alegre, vive com uma renda que mal cobre suas despesas mensais.
"Se eu tivesse um orelhão, comprava uma fichinha de R$ 2 ou R$ 3 e ligava. Se eu perder o celular, não tenho dinheiro para comprar outro", confessa Maria, que além do custo do aparelho móvel, enfrenta dificuldades no manuseio da tecnologia moderna. Sua declaração reflete a realidade de muitos idosos que dependiam dos telefones públicos como alternativa acessível de comunicação.
Enquanto a tecnologia avança e os smartphones dominam as comunicações contemporâneas, os orelhões permanecem como testemunhas silenciosas de uma era que está desaparecendo. Nos 97 municípios gaúchos sem cobertura móvel, esses equipamentos continuarão cumprindo sua função essencial por mais alguns anos, mas seu destino final parece inevitável diante do avanço digital.



