Governo federal desiste de venda do 'lixo atômico' estocado há 50 anos em Itu (SP)
O governo federal decidiu suspender, pelo menos temporariamente, a venda das 3,5 mil toneladas de material radioativo de baixa intensidade que estão armazenadas há quase cinco décadas em um sítio em Itu, no interior de São Paulo. Esse depósito, popularmente chamado de "lixo atômico" da cidade, permanece sem uma solução definitiva, conforme confirmado pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB), empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia, na segunda-feira (6).
Fracasso nas tentativas de comercialização
Um chamamento público para a venda da "Torta 2" – um resíduo composto por urânio, tório e terras-raras, proveniente do tratamento do minério de monazita – foi adiado seis vezes ao longo de dois anos e finalmente encerrado em 13 de março sem nenhuma proposta recebida. A INB esclareceu que não haverá prorrogação adicional do prazo. Esta não é a primeira tentativa malsucedida; em 2013, uma negociação com uma empresa chinesa também fracassou devido à falta de licenças ambientais necessárias para o transporte do material.
História conturbada do armazenamento clandestino
O material começou a ser estocado de forma clandestina em 1975, durante o regime militar, em uma área rural de Itu. A situação só veio à tona em 1979, desencadeando uma onda de protestos na comunidade local. O ex-prefeito Lázaro Piunti, que governava na época do início do armazenamento, classificou o ato como uma "agressão à autonomia do município". Atualmente, o terreno em Itu abriga 3,5 mil toneladas de Torta 2, armazenadas em sete silos de concreto com paredes de 20 centímetros de espessura, dentro de uma área isolada de 20 mil m².
Preocupações com segurança e riscos ambientais
A INB e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) afirmam que o local é seguro e monitorado constantemente, com análises regulares de água e solo que não indicam contaminação nos mananciais próximos. No entanto, especialistas como o físico Paulo Massoni, do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), alertam para os perigos. Ele destaca que a blindagem de concreto é antiga e que um possível vazamento poderia levar à contaminação ambiental, com riscos de quebra do DNA humano e aumento de casos de câncer devido à exposição à radiação.
Futuro incerto e impactos na população
Com o fracasso da venda, o destino do "lixo atômico" de Itu permanece incerto. A INB informou que avalia internamente a possibilidade de um novo processo de oferta pública, mas sem prazos definidos. Enquanto isso, a população local continua a conviver com a presença do depósito radioativo em sua região, levantando questões sobre saúde pública e segurança a longo prazo. O material também está estocado em outras duas unidades, em São Paulo e Caldas (MG), que igualmente aguardam soluções.



