Anac prorroga prazo da Comissão de Autocomposição do Aeroporto de Viracopos em Campinas
Anac prorroga prazo da Comissão de Viracopos em Campinas

Anac prorroga prazo da Comissão de Autocomposição do Aeroporto de Viracopos

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) decidiu prorrogar por até 30 dias o prazo de funcionamento da Comissão de Autocomposição responsável por discutir o futuro da concessão do Aeroporto Internacional de Viracopos, localizado em Campinas, no interior de São Paulo. A medida foi publicada nesta sexta-feira, dia 6, no Diário Oficial da União e entrará em vigor a partir da próxima terça-feira, dia 10.

Contexto da decisão e funcionamento da comissão

A Comissão de Autocomposição de Viracopos foi criada em outubro de 2025 com o objetivo principal de buscar uma solução para a concessão do aeroporto através do diálogo entre o poder público e a concessionária Aeroportos Brasil Viracopos (ABV). Segundo a portaria publicada pela Anac, a prorrogação do prazo considera a necessidade de assegurar a adequada continuidade e conclusão dos trabalhos desenvolvidos na análise das questões relacionadas ao contrato de concessão.

Com o encerramento do processo de relicitação do terminal, duas possibilidades principais estavam em jogo: a operação no aeroporto poderia retornar para o governo federal, configurando uma situação de caducidade, ou a concessionária poderia se manter à frente da gestão do terminal. A prorrogação do prazo da comissão busca justamente aprofundar essas discussões e encontrar uma solução consensual.

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Silêncio da concessionária e posicionamento da Anac

Quando procurada para se manifestar sobre as negociações em andamento, a concessionária Aeroportos Brasil Viracopos informou que não vai se manifestar sobre as negociações, que correm sob sigilo. Por sua vez, o g1 solicitou posicionamento oficial da Anac sobre a decisão, e a reportagem será atualizada assim que obtiver um retorno da agência reguladora.

Possibilidade de inclusão de outros ativos na concessão

Em janeiro deste ano, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPOR) confirmou que discutia, na Comissão de Autocomposição, a possibilidade de incluir outros ativos na concessão do Aeroporto de Viracopos. Na época, o g1 apurou que uma das possibilidades em estudo envolvia a inclusão de seis aeroportos das regiões Norte e Nordeste no acordo. Os aeroportos considerados eram:

  • Tarauacá, no Acre
  • Barcelos, no Amazonas
  • Itacoatiara, no Amazonas
  • Itaituba, no Pará
  • Parintins, no Amazonas
  • Guanambi, na Bahia

Impasse na concessão e processo de relicitação

O processo de relicitação de Viracopos não avançou porque o prazo legal para publicação do edital venceu em 2 de junho de 2025, conforme determina a Lei de Relicitações, que prevê dois anos desde a abertura do processo. A relicitação seria retomada apenas após o fracasso da tentativa de solução consensual entre a concessionária e o governo federal.

O impasse central nas negociações era o cálculo da indenização devida pela Anac à ABV, tanto pelos investimentos realizados desde 2012 quanto por possíveis ressarcimentos futuros. O Tribunal de Contas da União (TCU) exigiu que a Anac contratasse uma auditoria independente para definir esse valor antes do lançamento do edital de relicitação. Embora a contratação tenha sido aprovada, o documento nunca chegou a ser publicado, o que paralisou todo o processo.

De acordo com o TCU, outra razão significativa para a solução consensual não ter avançado foram as dificuldades colocadas pela própria concessionária. Em documento oficial, o órgão afirmou que o comportamento da ABV revela uma postura nada amigável, com patente má vontade, que não apenas dificulta o avanço do processo de relicitação, mas também compromete a eficiência administrativa e a concretização do interesse público.

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Crise financeira e tentativas de solução

Viracopos, que é o quinto aeroporto mais movimentado do Brasil, enfrenta uma crise financeira desde 2017. Naquela época, a concessionária pediu recuperação judicial e posteriormente aderiu ao processo de relicitação, tornando-se o primeiro aeroporto brasileiro a adotar esse caminho. A partir de 2023, com a melhora dos resultados financeiros e o aval do Ministério de Portos e Aeroportos, a ABV tentou encerrar a relicitação e retomar a solução amigável no TCU, buscando manter o contrato de concessão.

O principal entrave nas negociações da Secretaria de Controle Externo de Solução Consensual e Prevenção de Conflitos (SecexConsenso), órgão do TCU, foi a divergência sobre o valor da indenização. Após o arquivamento do processo, a concessionária levou o tema para a arbitragem judicial. Paralelamente, a Anac calculou o ressarcimento em aproximadamente R$ 2,5 bilhões, referentes a investimentos ainda não amortizados até 31 de dezembro de 2022.

Trajetória: de recuperação judicial à relicitação

O último plano de recuperação judicial do aeroporto foi protocolado em dezembro de 2019 e aprovado em fevereiro de 2020, após um acordo entre a concessionária, a Anac e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A Justiça encerrou oficialmente a recuperação em dezembro de 2020, e o processo de relicitação começou logo em seguida. O edital de relicitação foi aprovado em agosto de 2021.

Vale destacar que a Aeroportos Brasil Viracopos já havia manifestado interesse em devolver a concessão em 2017, mas o processo travou porque a Lei nº 13.448/2017, que regulamenta as relicitações de concessões públicas, só foi devidamente regulamentada em 2019.

Reestruturação financeira e situação atual

Com a melhora financeira gradual, o aeroporto voltou a registrar recordes de passageiros em 2022 e 2023, o que reforçou o argumento da concessionária de que a continuidade da gestão privada seria mais vantajosa do que uma nova licitação. A dívida total da ABV chegou a impressionantes R$ 2,88 bilhões, referentes a outorgas atrasadas e débitos bancários incluídos no processo de arbitragem.

Atualmente, a Infraero detém 49% das ações de Viracopos. Os outros 51% pertencem a um consórcio formado pela UTC Participações (28,41%), Triunfo Participações (68,65%) e Egis (2,94%), que juntas compõem a concessionária Aeroportos Brasil Viracopos. A prorrogação do prazo da Comissão de Autocomposição representa mais um capítulo nesta complexa negociação que determinará o futuro de um dos principais aeroportos do país.