Monge Shaolin alemão: 'Só a introspecção preenche o vazio interior'
Monge Shaolin: introspecção é chave para plenitude

Em um mundo marcado pela busca incessante por validação externa, um monge budista nascido na Alemanha oferece um caminho ancestral para a verdadeira satisfação. Shi Heng Yi, fundador do Shaolin Temple Europe e autor do livro recém-lançado "Espírito Shaolin" (Editora Intrínseca), defende que a fusão entre meditação e artes marciais é a receita milenar para enfrentar as crises individuais da contemporaneidade.

A filosofia do autodomínio contra o sofrimento moderno

Em entrevista publicada na edição nº 2977 da revista VEJA, de 9 de janeiro de 2026, o monge apresenta uma visão contundente. Para ele, as causas do sofrimento humano – sejam conflitos, carências ou desejos não realizados – são frequentemente combatidas com foco na mudança das circunstâncias externas. A tradição Shaolin, no entanto, segue uma rota oposta.

"A tradição Shaolin não enfatiza o desenvolvimento dessas questões externas, mas o aprimoramento do próprio indivíduo", explica Shi Heng Yi. É nesse ponto que surge o conceito central do autodomínio: concentrar a atenção no cultivo de si mesmo, nas próprias crenças, padrões, perspectivas e pensamentos. Compreender claramente nosso lugar na vida é, segundo ele, o que gera as soluções adequadas para nossa existência.

O equívoco da validação externa e o cultivo da mente

O monge identifica um grande obstáculo para a incorporação desses preceitos na vida moderna: a crença generalizada de que conquistas materiais e sociais equivalem a plenitude. "Existe um equívoco generalizado de que a aquisição de conhecimento, informação, fama, dinheiro e validação externa equivale a ter uma vida plena", alerta. Ele é categórico ao afirmar que todo o trabalho deve ser feito, antes de tudo, para si mesmo, e não para o mundo.

Embora a tradição que ele comanda preconize uma série de exercícios físicos rigorosos, Shi Heng Yi não subestima o desafio de treinar a mente. "Um único pensamento pode arruinar o dia — não importa se ele é verdadeiro ou não", destaca, enfatizando a necessidade de um cultivo mental apropriado para complementar o cuidado com o corpo.

Um conselho para escapar do ciclo de danos

Questionado sobre as falhas da sociedade contemporânea, o fundador do Shaolin Temple Europe aponta para uma "ignorância" fundamental. "Ela confunde o falso com o verdadeiro, o verdadeiro com o falso, a verdade com a mentira e a mentira com a verdade", analisa. Esse ciclo, afirma, só será interrompido quando surgir o desejo genuíno de pôr fim a essa confusão, cessando danos a nós mesmos e aos que estão ao redor.

Fiel ao espírito Shaolin, seu conselho final é um chamado direto à autorreflexão: "Pergunte sempre a si mesmo se você está verdadeiramente satisfeito com a sua vida e se as soluções que o mundo propaga têm realmente funcionado no seu caso". A mensagem final é clara e serve como um resumo de sua filosofia: "Não existe nada neste mundo que possa preencher e satisfazer o vazio interior. Isso só pode ser feito por meio da introspecção".

Shi Heng Yi posiciona, assim, a sabedoria ancestral do templo Shaolin como um antídoto potente para a inquietação moderna, defendendo que a jornada para fora deve começar com uma corajosa viagem para dentro.