Passados cinquenta anos de sua morte, Agatha Christie (1890-1976) permanece não apenas como a maior escritora de romances policiais de todos os tempos, mas também como uma figura envolta em enigmas que rivalizam com os de suas próprias histórias. Autora de clássicos como O Mistério dos Sete Relógios (1929), Assassinato no Expresso Oriente (1934) e E Não Sobrou Nenhum (1939), sua trajetória pessoal é pontuada por episódios tão intrigantes quanto os casos de seus famosos detetives, Hercule Poirot e Miss Marple.
O misterioso desaparecimento de 11 dias
O episódio mais perturbador da vida de Agatha Christie ocorreu em dezembro de 1926. Após descobrir a traição do marido, Archibald Christie, a escritora saiu de casa e simplesmente sumiu. Seu carro foi encontrado abandonado em um barranco, com os faróis acesos e seus pertences intactos.
O caso mobilizou a Inglaterra. Por 11 dias, uma operação maciça com policiais, aviões, mergulhadores e mais de 15 mil voluntários vasculhou a região. A autora foi finalmente localizada no Hotel Swan Hydropathic, em Harrogate, registrada sob um nome falso e apresentando um estado de confusão mental. Diagnosticada posteriormente com uma fuga dissociativa, Christie nunca deu explicações públicas sobre o ocorrido, nem mesmo em sua autobiografia.
O silêncio alimentou teorias. Alguns acreditam que foi uma jogada de marketing para promover seus livros. Outros especulam que ela planejou incriminar o marido. O fato é que o desaparecimento de 1926 se tornou um dos maiores mistérios não resolvidos da literatura.
A lenda do Hotel Pera Palace e a chave perdida
Décadas mais tarde, o sumiço ganhou um novo capítulo ligado ao Hotel Pera Palace, em Istambul. Christie era hóspede frequente do local entre 1926 e 1932, hospedando-se sempre no quarto 411, onde teria escrito partes de Assassinato no Expresso do Oriente.
Após sua morte, uma lenda urbana ganhou força. Circulou que uma médium revelou que a escritora teria escondido uma chave sob o assoalho daquele quarto. Essa chave supostamente abriria um cofre ou guardaria um caderno com os segredos dos 11 dias perdidos. Incrivelmente, uma chave foi de fato encontrada no local indicado, gerando uma série de disputas e especulações que nunca chegaram a uma conclusão definitiva.
Seja verdade ou mito, a história consolidou o Pera Palace no imaginário dos fãs. Hoje, o quarto 411 foi rebatizado como Quarto Agatha Christie e pode ser reservado por qualquer um que queira se hospedar no epicentro desse enigma.
O inédito obituário de Hercule Poirot
O legado de Agatha Christie transcende suas obras e alcança seus personagens de forma única. Preocupada que outros autores explorassem seu detetive mais famoso após sua morte, Christie tomou uma medida drástica. Em 1940, ela escreveu o romance Cai o Pano, que narra a morte de Hercule Poirot. O manuscrito foi guardado para ser publicado apenas no fim de sua vida.
O livro foi lançado em 1975, um ano antes da morte da autora. O desfecho do detetive belga foi tão impactante que o prestigiado jornal The New York Times publicou um obituário para Poirot em sua seção de notícias. Foi a primeira e, até hoje, a única vez que um periódico de grande porte concedeu tal honraria a um personagem fictício.
Esse fato singular coroa a carreira de uma autora cuja vida e obra se entrelaçam de maneira inseparável. Agatha Christie não apenas criou mistérios perfeitos para a ficção, como também deixou para o mundo real enigmas que permanecem sem solução definitiva, mantendo viva sua aura de rainha do suspense mesmo meio século após sua partida.