Curta sobre Gilson de Souza, sambista de Marília, é selecionado para Mostra de Tiradentes
Curta sobre sambista Gilson de Souza vai para Mostra de Tiradentes

A memória e a obra do sambista mariliense Gilson de Souza ganham um novo capítulo nas telas do cinema. O curta-metragem "Gilson de Souza – Na corda bamba", dirigido por Brunno Alexandre, acaba de ser selecionado para a prestigiada 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, um dos principais eventos do audiovisual brasileiro. A produção resgata a vida e o dilema artístico do compositor, falecido em junho de 2022, no dia de seu 78º aniversário.

Do ringue ao samba: o conflito que definiu uma carreira

No centro da narrativa do filme está o embate vivido por Gilson de Souza, cujo nome verdadeiro era Adolfo Cirino de Souza, entre duas paixões: o boxe e a música. Na juventude, o artista dividia seus talentos entre os ringues e a composição de sambas, um conflito que marcou profundamente seu caminho. A decisão final veio após uma fratura na mão, lesão que encerrou sua promissora carreira no esporte e o levou a dedicar-se integralmente à música.

Essa escolha resultaria em clássicos do gênero, como "Poxa" e "Orgulho de um sambista", gravados posteriormente por nomes consagrados como Zeca Pagodinho e Jair Rodrigues. O diretor Brunno Alexandre vê nesse dilema uma questão atemporal. "Esse conflito segue presente para a juventude, sobretudo entre jovens negros e de origem popular. Ainda é na música ou no futebol que o sonho de ter uma vida melhor é uma aposta", reflete.

Uma história com raízes em Marília

A conexão com a cidade de Marília, no interior de São Paulo, é um pilar fundamental do projeto. Tanto Gilson de Souza quanto o diretor Brunno Alexandre, que se mudou para a cidade em 2004, construíram suas trajetórias no município. A busca por referências locais negras, muitas vezes apagadas ou pouco reconhecidas, motivou a criação do filme.

"Sempre procurei personalidades que pudessem inspirar histórias. Nessa pesquisa, existia uma dificuldade quando se tratava de pessoas negras, muitas vezes sem reconhecimento de sua trajetória", explica Alexandre. As gravações ocorreram em locações da área urbana de Marília e no distrito rural de Avencas, com a proposta de reconstruir ambientes da década de 1960, utilizando uma antiga academia de artes marciais e uma mercearia.

Elenco local e uma abordagem híbrida

O filme, que começou a ser concebido em 2020 e contou com entrevistas telefônicas com o próprio Gilson pouco antes de sua morte, tomou um rumo ficcional após ser aprovado em um edital da Lei Paulo Gustavo. A opção pelo preto e branco reforça essa proposta híbrida, entre documentário e ficção, e também dialoga com a escassez de registros audiovisuais de artistas negros daquela época.

O protagonismo ficou a cargo do ator mariliense Douglas Eduardo DW, que interpreta Gilson na juventude. A cantora Eliana Jardim, também da cidade, participa interpretando a música "Zelão", de Sérgio Ricardo. "Essas escolhas dialogam com a ideia de território e pertencimento", afirma o diretor.

A circulação do curta por festivais como Kinoarte (PR) e Fest Aruanda (PB), e agora sua seleção para Tiradentes, não apenas consolida a produção no circuito nacional, mas também provoca uma reflexão mais profunda. Brunno Alexandre destaca que, ao revisitar arquivos como a cena em que Gilson recebe o Troféu Imprensa em 1976, fica evidente o retraimento do artista. "Esse desconforto revela os efeitos do racismo que atravessaram sua vida", avalia.

Mais do que um tributo, "Gilson de Souza – Na corda bamba" cumpre um papel de resgate e provocação. "Um dos efeitos do filme é despertar o desejo de conhecer mais sobre a trajetória artística de Gilson de Souza", finaliza Brunno Alexandre. "Sua memória está viva."