Declarações de Edson Gomes geram debate sobre arte e política
O baiano Edson Gomes, de 70 anos, construiu uma carreira respeitada de mais de cinco décadas denunciando em seus reggaes as desigualdades sociais, a violência policial e o racismo. Fora dos palcos, no entanto, o artista tem acumulado declarações que geraram intensos debates entre fãs e políticos. Às vésperas de sua apresentação no Lollapalooza 2026, nesta sexta-feira (20), suas falas revelam um discurso atual que se distancia das interpretações mais politizadas da sua obra.
Críticas aos comunistas e programas sociais
Em fevereiro deste ano, durante uma apresentação, Edson Gomes interrompeu o show para fazer um discurso convocando os pais a "reagirem" contra o que chamou de 'caça' aos filhos pelos comunistas. "Agradecer aos pais e mães que trazem suas crianças para ouvir esse reggae. Aqui elas vão sair com algo positivo na mente, sem maconha, sem droga. Só a mensagem positiva para que, quando elas crescerem, tomem decisões melhores que as dos pais. Os nossos filhos são caçados pelos comunistas para que eles possam ser nada. Para que eles se tornem simplesmente uma presa. E nós precisamos reagir!".
Em show recente, o artista também fez ressalvas aos programas sociais, associando o Bolsa Família à manutenção da pobreza para fins eleitorais. Para Gomes, o Bolsa Família serve de base para "chantagens políticas". "Eles precisam de um povo necessitado para que eles façam as suas chantagens em seus palanques. Eles querem o povo recebendo Bolsa Família para que eles façam a chantagem, que o povo vai perder o benefício e com medo eles vão lá em massa votar neles".
Questionamentos sobre sindicatos e Consciência Negra
A relação com os sindicatos também foi tema de um desabafo no podcast "Bahia Cast". A entrevista foi concedida em janeiro de 2022. Na ocasião, Edson Gomes criticou o uso de sua obra sem o devido retorno profissional, chamando de "canalhas" os sindicalistas que utilizam suas músicas em protestos, mas não o contratam para shows. "Minha música não tem bandeira. Não estou nem aí para sindicato, não estou nem aí para ninguém. Eles sempre usam a minha música e eu nunca fui protestar. Use! Muito obrigado por vocês estarem usando minha musica! Agora só que, seus canalhas, na hora de suas festas, vocês não me contratam".
Edson Gomes também questionou a data comemorativa. Para o cantor, o Dia da Consciência Negra funciona como uma forma de "distração" estratégica. "E a Consciência Negra...eles nos querem assim, debatendo coisas que não vão levar a nada para ocupar o nosso tempo e nós acharmos que estamos lutando pela nossa liberdade. Na verdade, eles estão nos distraindo para que nós não nos lembremos do nosso dia a dia."
Defesa da autenticidade e desvinculação política
Apesar do forte conteúdo social de suas letras, Gomes defendeu que o artista não deve se envolver com política, tentando desvincular sua obra das interpretações partidárias que o acompanham há décadas. "O músico não deveria nunca se envolver com política. Minha música não está atrelada à política. Nunca esteve e jamais estará. Não me peça para me posicionar politicamente porque a minha música não está atrelada a política nenhuma".
Questionado, em entrevista, sobre as contradições apontadas por parte do público, o artista rebateu as críticas com um discurso de autenticidade. "Minha música permanece até hoje porque é verdadeira. Muitos artistas vieram de baixo, mas sumiram porque foram induzidos a fazer 'determinadas coisas'. Mas eu não! Vou ser assim até morrer. Não importa a pressão. Não importa que alguém diga que eu sou hipócrita. Minha hipocrisia vai ser eterna."
Obra versus criador: a discografia de resistência
Apesar das declarações recentes, Edson Gomes carrega uma discografia que é, há décadas, trilha sonora de resistência entre a população negra e periférica brasileira. Em "Sistema do Vampiro" (1988), o cantor aponta a negligência social e a opressão do Estado: "Estamos largados nas calçadas. Nós não temos nem moradia, não temos nada. Esse sistema é um vampiro!".
O repertório avança pela organização coletiva em "Criminalidade" (1992), onde o artista defende que "nem mesmo a polícia pode destruir certas manobras organizadas". Já em "Camelô" (1997), ele dá voz à resistência do trabalhador autônomo: "Sou camelô. Sou do mercado informal. Com minha guia, sou profissional. Sou bom rapaz, só não tenho tradição". A força política da sua obra é reforçada por títulos como "Acorde, Levante, Lute" (2001) e o registro ao vivo lançado em 2020 em homenagem ao "Dia do Trabalhador".
Reações políticas: críticas e homenagens
As declarações de Edson Gomes provocaram reações da deputada estadual Olívia Santana (PCdoB). Ela criticou o que chamou de "radicalização à direita" do cantor. Para a parlamentar, existe um abismo entre as letras e a postura do artista: "Edson Gomes compõe como um comunista, mas fora da vida artística age como qualquer pessoa de direita", afirmou em suas redes sociais. Olívia ressaltou a contradição de hits como "Vampiro", que critica o sistema capitalista, serem usados como hinos em manifestações de trabalhadores. "É triste ver sua radicalização nesta fase da vida. O bolsonarismo vibrou com seu discurso. Nós seguiremos dançando seu reggae como entretenimento, mas combateremos seu discurso reacionário", disparou a deputada durante a abertura do Carnaval de Salvador.
As declarações recentes de Edson Gomes também repercutiram entre parlamentares de direita do cenário político baiano. No último sábado (14), o deputado estadual Leandro de Jesus (PL) apresentou um projeto na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) para conceder ao cantor a Comenda 2 de Julho, a maior honraria do estado. Na justificativa do projeto, o parlamentar classifica a obra de Gomes como uma "contribuição inestimável à cultura e ao pensamento social". O texto destaca que o artista utiliza a música como ferramenta de denúncia sobre desigualdade e injustiça, fortalecendo "o orgulho do povo baiano". A proposta ainda não tem data para ser votada no plenário da Alba.
A fronteira entre consciência social e engajamento partidário
Apesar das frequentes cobranças de parte do público por um posicionamento político explícito, sempre existiu uma fronteira clara nas letras de Edson Gomes entre a consciência social e o engajamento partidário. Essa postura já estava presente em "Cão de Raça" (1988): "Eles nem sabem qual é a maneira de exterminar de uma vez essa seca. Enquanto eles pensam, o povo cumpre sua sina. E vive esperando a providência divina". E em uma de suas composições mais recentes, "Pleito" (2020): "E o que vão nos prometer? São mentiras! Que vão fazer tudo acontecer, é mentira! Vá com tua política para outro lugar".



