Dom Mário assume Aparecida e clama pelo fim do feminicídio e das guerras
Dom Mário assume Aparecida e clama pelo fim do feminicídio

Em sua primeira missa como arcebispo da Arquidiocese de Aparecida, realizada neste sábado (2), Dom Mário Antônio da Silva enfatizou o compromisso social da Igreja, fez um veemente apelo contra o feminicídio e defendeu uma atuação eclesial que transcenda a espiritualidade, abordando questões concretas da sociedade brasileira.

Apelo contra a violência

Um dos momentos mais marcantes da celebração ocorreu quando o arcebispo alertou diretamente sobre a urgência de enfrentar a violência no país, com especial atenção à situação das mulheres. “Nos interpela hoje na questão da violência, de qualquer forma, inclusive a violência contra a mulher. Devemos combater diante do vergonhoso número de feminicídios no nosso Brasil”, declarou.

Paz começa no coração

Outro tema central foi a paz. Dom Mário afirmou que os conflitos têm origem nas atitudes individuais antes de se manifestarem em escala global. “Convictos de que Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida, proclamemos ao mundo que Ele é a nossa paz. Unamo-nos ao clamor do Papa Leão XIV pela paz mundial. Como temos ouvido de Dom Orlando, a guerra começa no coração, não quando as bombas são lançadas, mas dentro de cada pessoa. Proclamemos, com o Papa, ao mundo inteiro: Cristo é a nossa paz”, discursou.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Posse e sucessão

Dom Mário tomou posse como novo arcebispo de Aparecida após ser nomeado pelo Papa, sucedendo Dom Orlando Brandes, que agora é arcebispo emérito. A cerimônia marcou o início oficial de seu ministério episcopal na arquidiocese, que abrange cidades do Vale do Paraíba e exerce forte influência nacional por sediar o maior santuário mariano do mundo e a maior igreja católica do Brasil.

Fé com ações concretas

Durante o sermão no Santuário Nacional de Aparecida, acompanhado por diversos cardeais, bispos e religiosos, além da presença do vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin (PSB), Dom Mário afirmou que a fé cristã deve produzir efeitos práticos na vida das pessoas e no mundo. “Fé gera vida nas relações pessoais, familiares e comunitárias. Fé gera vida na economia, na política, na comunicação”, disse.

Programa de vida episcopal

Logo no início da homilia, ele resumiu o que considera ser o “programa de vida” de seu episcopado: “Viver a Páscoa e dar muitos frutos”. Segundo ele, o papel do bispo é conduzir a Igreja com base no Evangelho, promovendo unidade, discernimento e serviço. “O bispo é chamado a ser pessoa de discernimento e condução. Não cria caminhos próprios, mas ajuda o povo a caminhar em Cristo”, afirmou.

Reflexão sobre o Evangelho

A reflexão central da homilia baseou-se na frase de Jesus “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, que Dom Mário aplicou em três dimensões: o papel do bispo, a vida dos fiéis e a experiência dos romeiros. Ele declarou que a Igreja deve ser “sinodal, peregrina e fiel ao Evangelho”, e que os cristãos são chamados à conversão contínua no dia a dia. “Ser cristão é estar a caminho. Não é estagnação, mas conversão contínua”, destacou.

Igreja com atuação social

Ao longo do sermão, o arcebispo reforçou que a missão evangelizadora inclui necessariamente o compromisso com questões sociais. Ele citou temas como pobreza, desigualdade, moradia e fome. “Uma igreja que serve bem, que cuida dos mais frágeis, é uma igreja que evangeliza e dá muitos frutos para a vida do mundo”, afirmou.

Ele também incentivou o fortalecimento de ações concretas, como obras sociais e iniciativas de caridade, além de mencionar a Campanha da Fraternidade, que neste ano aborda a questão da moradia digna. Dom Mário ainda destacou a intenção mensal do Papa, voltada ao combate ao desperdício de alimentos e à fome. “A fome machuca, a fome dói, a fome mata”, disse.

Partilha e dignidade

Segundo ele, é necessário promover mais partilha e menos acúmulo, como caminho para garantir dignidade às pessoas. Ao final da celebração, Dom Mário fez agradecimentos e pediu colaboração dos fiéis, religiosos e autoridades. Ele também enfatizou a importância da unidade dentro da Igreja. “Dar muitos frutos para mim significa gerar comunhão onde há divisão, levar esperança onde há medo, promover justiça onde há exclusão”, declarou.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Ao encerrar, reforçou o desejo de construir uma Igreja missionária e próxima das pessoas. “Caminhemos juntos. Produzamos em Cristo muitos e bons frutos”, concluiu.

Quem é Dom Mário

Dom Mário Antônio da Silva foi nomeado arcebispo de Aparecida pelo papa Leão XIV no dia 2 de março de 2026. Ele se torna o sexto arcebispo da história da arquidiocese, uma das mais importantes do país por abrigar o Santuário Nacional de Aparecida, considerado o maior templo católico do Brasil e principal centro de peregrinação da América Latina.

Natural de Itararé (SP), dom Mário tem 59 anos e construiu sua trajetória religiosa em diferentes regiões do país. Foi bispo auxiliar de Manaus, atuou como bispo de Roraima — onde teve contato direto com a crise migratória — e, mais recentemente, era arcebispo de Cuiabá.

Ele assume o lugar de Dom Orlando Brandes, que deixa o comando da arquidiocese após completar 80 anos, idade em que a Igreja Católica prevê a renúncia de bispos e arcebispos. Desde então, Dom Orlando vinha atuando como administrador apostólico até a chegada do sucessor.

Ritos de posse

A cerimônia de posse seguiu os ritos tradicionais da Igreja Católica e aconteceu durante uma missa solene no Santuário Nacional. Para quem não está acostumado, alguns momentos marcaram oficialmente o início da função do novo arcebispo: primeiro, foi lido o documento do Papa que confirma a nomeação; depois, ele recebeu o báculo, um cajado que simboliza a missão de conduzir os fiéis; e, por fim, sentou-se na chamada “cátedra” — a cadeira do arcebispo —, gesto que representa que ele assumiu, de fato, a liderança da arquidiocese.

Mais cedo, antes da celebração, Dom Mário concedeu uma entrevista coletiva à imprensa, na qual abordou temas como o papel social da Igreja, eleições, acolhimento a migrantes e a relação com os jovens. Na ocasião, ele afirmou que a evangelização também envolve questões sociais e defendeu a chamada “política do bem comum”, além de destacar a importância de a Igreja estar atenta ao sofrimento das pessoas.