Em entrevista exclusiva a VEJA, o roteirista Lucas Paraizo e a diretora Luisa Lima falaram sobre os desafios e as motivações por trás da terceira temporada de Os Outros, série do Globoplay estrelada por Adriana Esteves. A conversa abordou desde a ambientação no campo até a temática central da intolerância, que, segundo eles, está cada vez mais presente na sociedade.
Intolerância como tema central
Lucas Paraizo explicou que a terceira temporada mantém o foco na intolerância, mas expande o cenário para mostrar que esse problema está alastrado em diferentes comunidades. “A ideia de mudar cada vez de espaço é para mostrar que essa intolerância está alastrada na comunidade. Isso vai de encontro ao conceito da série, que o inferno são os outros”, afirmou. Ele destacou que a série sempre busca surpreender o público, invertendo expectativas e oferecendo novas perspectivas.
Desafios da ambientação no campo
Luisa Lima comentou sobre o desafio de criar uma atmosfera sufocante mesmo em espaços abertos, como o interior. “No campo, a ida para a natureza, esse sonho idílico de paz, faz com que os personagens entrem mais em contato consigo mesmos. A fronteira entre os terrenos não é clara, e a vizinha pode entrar no meu terreno a qualquer hora. Isso traz uma sensação assustadora de solidão e perigo iminente”, disse.
Recepção da segunda temporada
Questionados sobre as críticas à segunda temporada, que teve um ritmo diferente da primeira, Lucas afirmou que faz parte do jogo. “A gente não está obedecendo ao algoritmo. Às vezes a escolha de um caminho dá mais certo que outro”, ponderou. Luisa acrescentou que há uma medida entre experimentação de linguagem e narrativa, e que na primeira temporada tudo se amalgamou perfeitamente. “A gente persegue essa combinação, pois estamos na TV Globo, no Globoplay, e queremos expressar como estamos vivendo esse mundo, falando sobre relações humanas, casamento, maternidade, masculinidade”, completou.
Evolução dos personagens
Sobre a personagem Cibele (Adriana Esteves), que na primeira temporada mata uma pessoa por superproteção ao filho, Lucas destacou a importância de explorar a maternidade sem idealização. “A maternidade muitas vezes perde a subjetividade do ser humano por trás. Tenho curiosidade de falar sobre essas personagens e suas relações com os filhos.” Luisa acrescentou que a tragédia faz parte da maternidade, mas na nova temporada há um equilíbrio maior, com o filho Marcinho (Antonio Haddad) se tornando cuidador da mãe.
Contexto de polarização no Brasil
Os criadores refletiram sobre o contexto de polarização desde 2023. Lucas acredita que agora há mais consciência sobre o tema. “A gente está discutindo essa polarização através do audiovisual. Esse ganho de consciência é fundamental. A contribuição que tentamos dar é discutir para onde vamos se continuarmos polarizados desse jeito.” Luisa ressaltou que a série não julga, mas analisa os agentes sociais. “A gente não aponta o dedo. Tentamos elencar as expressões sociais de diferentes pontos de vista, sem dar uma conclusão moral.”
Conclusão aberta ao espectador
Para Luisa, o grande barato da série é que o espectador não recebe uma resposta pronta. “Ele vai ter que construir essa resposta junto com a gente. O espectador é um sujeito ativo, que também vai ter que tomar partido do que sente.” Lucas finalizou: “Se nem a gente tem certeza absoluta de certas coisas, como é que a gente vai dizer para o outro? Somos os outros.”



