Uma descoberta arqueológica e paleontológica de grande relevância ocorreu no norte da Arábia Saudita. Pesquisadores encontraram os restos mortais de sete guepardos naturalmente mumificados, além de dezenas de esqueletos, em um conjunto de cavernas. A preservação excepcional dos corpos, que data de milhares de anos, está fornecendo insights inéditos sobre a história deste felino na região e pode ter implicações diretas para esforços modernos de conservação.
Uma cápsula do tempo no deserto
As escavações, realizadas entre os anos de 2022 e 2023, se concentraram em cinco cavernas na região de Arar, no norte saudita. No total, a equipe científica recuperou sete corpos mumificados e 54 esqueletos de guepardos. A quantidade de felinos encontrada em alguns dos espaços superava significativamente o número de presas, levando os pesquisadores a uma hipótese intrigante.
Essas cavernas podem não ter funcionado apenas como armadilhas naturais. A evidência sugere que os locais eram utilizados pelos animais como abrigo ou até mesmo como área para criação de filhotes. A análise dos crânios reforça essa ideia: dos 20 examinados, 14 eram de subadultos e nove pertenciam a filhotes com menos de um ano e meio de vida.
Preservação excepcional e novas revelações genéticas
A mumificação ocorreu de forma espontânea, um fenômeno raro para grandes carnívoros. As condições ambientais das cavernas foram decisivas: temperaturas elevadas e baixa umidade criaram um ambiente extremamente seco, inibindo a ação de bactérias e permitindo a preservação por milênios.
Tomografias computadorizadas realizadas nos espécimes revelaram detalhes impressionantes. Os pesquisadores identificaram tecidos moles preservados, articulações intactas e, em alguns casos, até estruturas internas do cérebro. O estudo, publicado na renomada revista Nature, marca um marco científico por apresentar as primeiras análises genéticas completas já feitas em grandes felinos mumificados de forma natural.
A datação por radiocarbono traçou uma linha do tempo surpreendente. Os restos mais antigos têm cerca de 4.200 anos, enquanto o exemplar mais recente viveu por volta do final do século XIX ou início do século XX. Isso comprova que os guepardos habitaram a Península Arábica por um período muito longo, incluindo eras relativamente recentes.
Impacto para a conservação de uma espécie à beira da extinção
Os dados genéticos apontam para uma descoberta crucial: os guepardos mumificados representam uma nova subespécie, distinta da subespécie asiática que hoje sobrevive apenas de forma crítica no Irã. Essa informação redesenha o mapa histórico da distribuição desses felinos.
A descoberta chega em um momento de extrema urgência para a espécie. Atualmente, os guepardos ocupam apenas 9% de sua área histórica de distribuição, tendo desaparecido de 91% de seus antigos domínios. Na Ásia, o declínio é ainda mais dramático, chegando a 98%. Na própria Arábia Saudita, o animal é considerado extinto localmente desde a década de 1970.
O conhecimento gerado por essa pesquisa tem aplicação prática imediata. A identificação de uma linhagem arábica adaptada localmente pode ampliar e fundamentar projetos de reintrodução da espécie no país, oferecendo opções genéticas mais adequadas ao ecossistema regional. A descoberta, portanto, não é apenas uma janela para o passado, mas também uma ferramenta potencial para reconstruir o futuro deste icônico felino.