Cena rara: Emas são flagradas nadando no Rio Grande entre SP e MG
Durante uma pescaria no Rio Grande, no trecho que faz divisa entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, os irmãos Deivid Walifer e Danatiel Pereira Sunochio presenciaram uma cena extraordinária: duas emas (Rhea americana) nadando. As aves de grande porte realizavam a travessia pelo lado mineiro do rio, demonstrando uma habilidade aquática pouco conhecida pela maioria das pessoas.
"Muita gente nem imagina que elas fazem isso. Foi uma cena muito diferente e bonita de se ver na natureza, por isso resolvemos registrar o momento", comenta Danatiel. A dupla, que atua como guia de pesca e conhece bem a região, afirma que o flagrante já se tornou um dos momentos mais especiais observados por eles no Rio Grande. "Já vimos muitas situações interessantes por estar sempre no rio, mas com certeza essa foi uma das cenas mais marcantes e diferentes que tivemos a oportunidade de ver", acrescenta o guia.
Repercussão surpreendente nas redes sociais
O vídeo foi compartilhado no perfil 'Operação Mira Estrela', administrado pelos irmãos e dedicado à pesca esportiva. Para surpresa da dupla, o conteúdo rapidamente chamou a atenção do público. "A repercussão foi surpreendente. O vídeo já passou de meio milhão de visualizações e recebeu muitas interações. Teve gente que já tinha visto algo parecido, mas a maioria se surpreendeu porque não sabia que as emas nadavam. Inclusive para nós também foi algo inédito", explica o guia e servidor público.
O ineditismo atraiu olhares curiosos e, de acordo com o biólogo Luciano Lima, há uma explicação para essa reação geral. "A ema carrega uma imagem muito consolidada no imaginário popular. Quando falamos em aves que não voam, muita gente logo pensa nelas correndo em paisagens abertas, como o Cerrado", pontua. "Então, quando as pessoas veem uma ema literalmente nadando, fazendo algo completamente fora do 'script', certamente ficam curiosas. É quase a mesma sensação de ver um jacaré subindo em uma árvore. A natureza gosta de derrubar os estereótipos que a gente cria", brinca o biólogo.
Habilidade aquática pouco conhecida da espécie
A cena contemplada no Rio Grande é considerada rara e incomum, já que a ema não é uma espécie aquática. "Diferente de um pato, que tem as penas impermeabilizadas e desliza pela água, a ema não tem essa proteção. Ela não possui a glândula uropigial, usada pela maioria das aves para tornar as penas hidrofóbicas", detalha o ornitólogo Luciano Lima.
Segundo o especialista, as penas encharcadas aumentam consideravelmente o peso do animal, exigindo que a travessia seja rápida e com destino certo. "As pernas potentes da ave ajudam nesse deslocamento e impulsionam o animal dentro da água", afirma. No site WikiAves, que reúne registros de observadores de todo o Brasil, existem mais de 6 mil fotos da espécie. No entanto, menos de 10 retratam a ave nadando, o que reforça a dificuldade de flagrar o comportamento.
"Embora esse comportamento seja mencionado na literatura científica, é algo muito raro de ser observado em campo. É possível que ocorra com mais frequência do que imaginamos, mas para registrá-lo é preciso estar no lugar certo, na hora certa", pontua Lima.
Registro histórico e importância científica
No livro Ornitologia Brasileira, de Helmut Sick, há um apontamento sobre essa aptidão: "Gosta de tomar banho entrando nos brejos e atravessando rios a nado, sendo boa nadadora". Charles Darwin também fez relatos históricos sobre o comportamento. "Darwin comenta sobre a ema e também sobre outra espécie parente próxima, a Rhea pennata, adaptada às regiões frias e de altitude da Patagônia e do Altiplano andino", acrescenta o ornitólogo.
Para Lima, o vídeo dos guias é valioso para preencher lacunas científicas, já que ainda não existe uma publicação dedicada especificamente a esse comportamento da espécie. "Um registro documentado com data, localidade e imagem é dado. Uma nota científica poderia reunir esse vídeo com registros do WikiAves e colocar tudo isso de forma estruturada na literatura. Cada peça do quebra-cabeça ajuda a montar uma imagem mais completa sobre a biodiversidade", finaliza.
Características e status de conservação da ema
De hábito terrestre, a ema é comumente avistada em ambientes abertos, como campos naturais, pastos e áreas agrícolas no Cerrado, Pantanal e Pampa. A espécie também ocorre na Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Considerada a maior e mais pesada ave brasileira, ela pode atingir 170 cm de altura e pesar mais de 30 kg. Embora não voe, é uma excelente corredora.
Apesar de abundante em certas regiões, a ave é considerada quase ameaçada globalmente pela IUCN e classificada como "criticamente em perigo" no estado de São Paulo, devido ao declínio populacional causado pela perda de habitat no Sudeste.
