Flanelinhas em Porto Alegre: motoristas enfrentam pressão e medo em áreas públicas
Apesar de ser proibida desde janeiro de 2020, a atuação de flanelinhas continua a ser uma realidade preocupante em diversas regiões de Porto Alegre. Motoristas relatam situações de intimidação, constrangimento e medo de danos aos veículos, especialmente em locais de grande circulação, como parques, a orla do Guaíba, bairros centrais e áreas próximas a estádios.
Abordagens agressivas e sensação de insegurança
Em flagrantes realizados pela RBS TV, foi possível observar flanelinhas abordando motoristas de forma insistente, indicando vagas nas ruas e pressionando por pagamento imediato. Os registros foram feitos em pontos estratégicos da cidade, incluindo o Parque da Redenção, a Orla do Guaíba e ruas no entorno do Estádio Beira-Rio.
Rose Oliveira, gerente de loja, compartilha sua experiência angustiante: "Eles cobram vinte, trinta reais para deixar o carro. A pressão que fazem é horrível. Tu se sente obrigado a pagar porque fica com medo de voltar e o carro estar arranhado". Ela destaca que essa situação não só afeta os motoristas, mas também prejudica o comércio local, afastando clientes e até moradores da região. "Às vezes, a gente vira e vai embora porque não tem onde estacionar sem passar por isso", completa.
O motorista de caminhão Israel Wasen relata que as abordagens são frequentes e causam ansiedade: "Já veio apertando a gente. A gente não quis pagar, mas fica o medo de danificar o carro. Tu senta e fica olhando pro carro, não tem paz". Esse sentimento de insegurança é compartilhado por muitos que buscam momentos de lazer com a família, transformando uma simples ida ao parque em uma experiência estressante.
Estratégias de intimidação e falsas alegações
Em alguns casos, os flanelinhas utilizam táticas enganosas para justificar suas ações. A fotógrafa Greice de Sena conta que um deles afirmou falsamente ter autorização da Guarda Municipal para realizar a cobrança. "A gente questionou, porque é um espaço público. Mas, com medo de estragarem o carro, acabamos tirando e colocando em outro lugar", explica ela, demonstrando como o temor leva os cidadãos a mudarem seus planos.
Mesmo quando não há uma solicitação direta de dinheiro, a abordagem pode ser constrangedora. A analista de produto Amanda Duarte descreve: "Eles fazem sinal com a mão, indicam onde estacionar e não falam de preço, mas fica aquela expectativa de que precisa deixar algum valor". Ela acrescenta que, em determinados locais, a aproximação se torna mais agressiva quando o pagamento não é realizado, aumentando a sensação de vulnerabilidade.
O que diz a legislação e como denunciar
A atuação de flanelinhas é expressamente proibida em Porto Alegre pela Lei Municipal nº 874, sancionada em 2020. A norma classifica a cobrança para cuidar de veículos estacionados em vias públicas como uma infração administrativa, com multa inicial de R$ 300, que pode dobrar em casos de reincidência.
Em nota, a Secretaria Municipal de Segurança reforça que situações envolvendo ameaça, coerção ou constrangimento podem configurar crimes, além da infração administrativa. A prefeitura orienta os motoristas a não realizarem qualquer tipo de pagamento e a reportarem as ocorrências.
Para denúncias, os cidadãos podem entrar em contato com a Guarda Civil Metropolitana pelo telefone 153 ou através do aplicativo 156. Nos casos de extorsão, ameaça ou outros crimes, a recomendação é acionar a Brigada Militar pelo 190 ou registrar uma ocorrência em uma delegacia de polícia.
A persistência dessa prática ilegal em Porto Alegre evidencia desafios na fiscalização e na aplicação da lei, enquanto os motoristas continuam a lidar com o medo e a insegurança no dia a dia.



