Novas imagens revelam contradições na versão do tenente-coronel acusado de feminicídio
O programa Fantástico deste domingo (22) divulgou imagens inéditas que mostram o tenente-coronel Geraldo Neto após o disparo que matou a policial militar Gisele Alves Santana, sua esposa. A PM foi encontrada com um tiro na cabeça no apartamento do casal, localizado no Brás, região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro. Um mês após o crime, Geraldo Neto foi formalmente acusado de feminicídio e fraude processual.
As imagens que desmentiram a versão do acusado
As câmeras corporais dos policiais que atenderam à ocorrência registraram momentos cruciais para a investigação. Às 11h24, os paramédicos já socorriam Gisele na sala, enquanto o PM que chefiava a equipe recebia a arma que causou a morte. "Deixa o armamento dentro da viatura", ordenou o policial. Durante quase todo o tempo, o tenente-coronel Geraldo Neto permaneceu ao telefone.
Quando questionado sobre os acontecimentos, Neto apresentou uma versão detalhada: "Eu entrei no banheiro da frente. Só que, quando eu entrei, fazia um minuto, debaixo do chuveiro, ouvi um barulho forte. Achei que era ela batendo na porta. Achei estranho, abri o boxe. Olhei na sala, ela tava caída no chão com sangue. Ela deu um tiro na cabeça."
Sobre a localização da arma, ele afirmou: "Só que minha arma fica em cima do guarda-roupa. E eu deixo a porta trancada. Como o banho dela demora 30 minutos e o meu demora cinco, não me preocupei em trancar a porta do quarto, deixei aberta."
A perícia que desmontou a narrativa
A análise pericial da cena do crime revelou inconsistências fundamentais na versão do tenente-coronel. Segundo os especialistas, Gisele não teria como alcançar a arma que estava em cima do armário. Além disso, uma árvore de natal que estava na sala, conforme relato dos socorristas, impediria que Neto visse a esposa caída no chão a partir da porta do banheiro.
Osvaldo Nico Gonçalves, secretário de Segurança Pública de São Paulo, destacou a importância dos primeiros atendentes: "Eles não se intimidaram porque era um tenente coronel que estava lá, eles passaram a informação correta do que eles viram aos seus superiores."
Contradições sobre a separação e violência financeira
Nas gravações, o tenente-coronel afirmou que o casal dormia em quartos separados e que ele pretendia terminar o casamento. "Fui no quarto, dei bom-dia, fiz orações e melhor a gente separar mesmo", declarou. No entanto, mensagens de celular acessadas pela polícia civil mostram que era Gisele quem pedia a separação.
Enquanto a esposa era levada ao hospital, Geraldo Neto fez questão de destacar que era ele quem sustentava a mulher e a filha dela, fruto de outro relacionamento. "Eu pago 3600 de aluguel e 1400 condomínio. 5 pau. Fora luz, gás, internet que dá mais uns 1000. Vai pra 6 ml", disse aos policiais.
O delegado da Polícia Civil Lucas Lopes identificou indícios claros de uma escalada de violência na relação: "com sinais de violência doméstica, psicológica, física e até violência financeira". Dois dias antes do crime, o marido se descrevia como um "macho alfa" e cobrava que a esposa fosse "fêmea beta obediente e submissa".
Manipulação da cena do crime e o banho suspeito
Uma vizinha relatou ter ouvido o disparo às 7h28 da manhã, mas a primeira ligação de Geraldo Neto só ocorreu às 7h55 — e foi direcionada ao seu próprio comandante. O socorro foi acionado apenas depois desse contato. "Houve um lapso temporal que acreditamos que ele utilizou para manipular a cena do crime", afirmou o delegado responsável.
As câmeras corporais também registraram o momento tenso em que o tenente-coronel insistiu em tomar banho, sendo questionado pelos policiais:
Policial: O senhor não saiu do banho agora?
Geraldo Neto: Irmão, eu entrei no banho, na hora que ouvi o barulho, eu abri a porta. Peguei a bermuda aqui em cima, vesti cueca e bermuda e saí. Nem cheguei a tomar banho, fiquei um minuto no chuveiro sequer.
Policial: É que o senhor sabe a burocracia que é pra nós, quanto mais agilizar…
Geraldo Neto: Eu tenho 34 anos de serviço, eu sei o que 'tô' falando.
Policial: Então…
Geraldo Neto: Eu vou tomar banho, irmão.
Policial: Não dá pra botar uma camiseta e um short?
Geraldo Neto: Não, eu não tô bem pra ir assim. Vou tomar um banho.
Os policiais militares expressaram preocupação entre si sobre a possibilidade de eliminação de vestígios durante o banho. Posteriormente, Neto tentou justificar o segundo banho em poucas horas: "Eu estava passando mal e eu fui tomar banho por dois motivos. Pra baixar a minha pressão, que eu estava passando muito mal [...] E eu precisava colocar uma roupa, porque eu sabia que eu ia vir para a delegacia."
A versão de suicídio que não se sustenta
A investigação concluiu que seria impossível o suicídio nas condições apresentadas pelo tenente-coronel. Segundo a perícia, Neto segurou Gisele por trás, próximo à porta da varanda, e atirou no lado direito da cabeça dela. No mesmo dia da prisão, ele manteve a versão de suicídio durante seu depoimento.
Um exame apontou a presença de sêmen no corpo de Gisele. O marido afirmou que tiveram relação sexual no dia anterior ao crime, mas a polícia agora investiga se essa relação foi consensual.
Outras denúncias de assédio emergem
Após a morte de Gisele, outra policial militar afirmou ter sofrido assédio sexual por parte do tenente-coronel Geraldo Neto. Segundo ela, o abuso ocorreu no segundo semestre do ano passado, período em que ele ainda vivia com Gisele. "Ele tentou induzi-la a praticar atividade física sem a vontade própria desta policial, ele a cercou de todas as formas", declarou José Miguel da Silva Júnior, advogado da família de Gisele.
A identidade da policial não foi revelada por medo de represálias. Em depoimento, ela relatou que Neto tentou beijá-la e a transferiu de batalhão por vingança. O tenente-coronel também é acusado de assédio moral contra quatro policiais mulheres em 2022, quando comandava outra unidade da PM. Segundo Geraldo, as PMs espalharam que ele e Gisele estavam tendo um caso, o que ambos negavam na época.
Uma outra policial do mesmo batalhão processou o Estado de São Paulo por assédio moral e recebeu uma indenização de 5 mil reais. A nova denúncia de assédio sexual será analisada pela Corregedoria da Polícia e acompanhada pela família de Gisele. Para o advogado da família, o resultado do inquérito e a prisão do tenente-coronel trouxeram algum alívio aos familiares da vítima.



