Tenente-coronel da PM é preso preventivamente por suspeita de feminicídio
O tenente-coronel Geraldo Neto, suspeito de assassinar a esposa, a soldado Gisele Alves, com um tiro na cabeça, foi preso preventivamente pela Justiça Militar na manhã desta quarta-feira (18). A prisão ocorreu em São José dos Campos, no interior de São Paulo, após a decretação com base em garantias de ordem pública, conveniência da instrução criminal e preservação da hierarquia e disciplina militar.
Competência judicial em disputa
A defesa do oficial, representada pelo advogado Eugênio Malavasi, afirma que a Justiça Militar não tem competência para analisar e julgar o caso, que deveria ser encaminhado à Justiça comum. Malavasi informou que irá suscitar conflito de competência, argumentando que crimes comuns, como homicídio contra civis, são de alçada da Justiça comum. No Brasil, a definição sobre qual Justiça julga policiais militares depende da natureza do crime e da vítima: crimes militares ou contra outros agentes da corporação ficam na Justiça Militar, enquanto crimes comuns são analisados pela Justiça comum.
O Tribunal de Justiça Militar justificou a prisão preventiva citando risco de interferência nas investigações, incluindo possível influência sobre testemunhas. O órgão determinou a apreensão de celulares, a quebra de sigilo de dados eletrônicos e o compartilhamento de provas com a Polícia Civil.
Laudos periciais apontam feminicídio
A decisão das autoridades em pedir a prisão de Geraldo ocorreu após a Polícia Técnico-Científica anexar ao inquérito laudos relacionados à morte de Gisele. Indícios em dois dos 24 laudos foram determinantes:
- Trajetória da bala: O disparo foi dado de baixo para cima, com o cano encostado na cabeça da vítima.
- Profundidade dos ferimentos: Marcas de dedos no pescoço indicam que Gisele desmaiou antes de ser baleada.
Resultados de exames, como o necroscópico, o da exumação do corpo e o toxicológico, foram cruciais para a delegacia concluir que Geraldo matou Gisele por ciúmes e possessividade. O oficial tem 53 anos; Gisele tinha 32.
Versão inicial de suicídio é descartada
Inicialmente, o coronel afirmou que a esposa havia se suicidado após uma discussão, mas a versão foi descartada após a Polícia Civil tratar o caso como morte suspeita. Laudos periciais indicaram homicídio, com detalhes que contradizem a narrativa de suicídio:
- Residuográfico: Não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo.
- De local de crime: Gisele foi encontrada caída e segurando a arma, o que é incomum em casos de suicídio, segundo peritos.
- Toxicológico: Não encontrou resquícios de álcool ou drogas, descartando a possibilidade de ela estar dopada.
Indícios de adulteração da cena do crime
Outros pontos chamaram a atenção das investigações:
- O coronel telefonou para a PM pedindo socorro apenas 29 minutos após uma vizinha escutar um tiro.
- Ele havia dito que tinha tomado banho antes de a mulher atirar, mas quando socorristas chegaram ao imóvel, o encontraram com o corpo seco.
- Somente após ligar para um desembargador amigo, que foi à residência, é que Geraldo foi se banhar, desobedecendo orientação de policiais militares no local.
- Exames indicaram a presença de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento, detectados com luminol.
Após a perícia na residência, três policiais militares mulheres foram até lá limpar o imóvel. Por causa dessa conduta, o coronel passou a ser investigado pela Corregedoria da PM também por abuso de autoridade. Geraldo havia pedido afastamento da corporação após a morte da esposa.
Próximos passos do processo
O tenente-coronel será encaminhado ao 8º Distrito Policial, no Brás, região central de São Paulo, onde prestará depoimento e passará por exames de corpo de delito. Em seguida, deve ser levado ao Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte. A Secretaria da Segurança Pública informou que o Inquérito Policial Militar será concluído nos próximos dias.
O advogado José Miguel da Silva Júnior, que representa os parentes da vítima, disse: “Desde o início a família não acreditou que Gisele poderia ter cometido suicídio. Esperamos que ele seja processado pelo Ministério Público, vá a júri e seja condenado.”
A delegacia responsável também pediu a prisão de Geraldo à Justiça comum, que ainda não havia se manifestado, mas a decisão acabou saindo primeiro na esfera militar. O caso continua sob investigação, com a possibilidade de novos desdobramentos à medida que os laudos forem concluídos e a competência judicial definida.



