Projeto Vivas: Estudantes de escola pública criam aplicativo contra violência doméstica e conquistam vaga em Harvard
Um projeto inovador desenvolvido por estudantes da rede pública de ensino está ganhando reconhecimento internacional. O Projeto Vivas, criado na Escola Técnica Estadual (ETE) Ministro Fernando Lyra, em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, será apresentado na prestigiada Harvard University nos Estados Unidos.
Conquista nacional e reconhecimento internacional
O projeto conquistou o segundo lugar em nível nacional na 12ª edição do programa Diálogos, da Brazil Conference, considerada a maior conferência de estudantes brasileiros no exterior. Entre 128 equipes inscritas e mais de 600 participantes de todo o país, o Projeto Vivas obteve o melhor resultado do Nordeste.
Desenvolvido pelos estudantes egressos Ingridy Silva e Kauã Silva, sob orientação da professora e gestora Eligivania Macedo, a iniciativa será exibida em vídeo durante a programação oficial da conferência em Harvard, que acontecerá em abril na cidade de Cambridge, Massachusetts.
Como funciona o aplicativo
O Projeto Vivas criou um canal de registro de casos de violência doméstica por meio de um aplicativo de celular. A ferramenta permite que estudantes comuniquem situações de agressão vividas ou testemunhadas dentro de seus próprios lares.
Segundo a Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco (SEE-PE), após o registro, a família é imediatamente acolhida pela escola e recebe:
- Orientação sobre medidas de proteção
- Acesso à rede de apoio especializada
- Encaminhamentos necessários para serviços de assistência
Autonomia financeira como estratégia de ruptura
Um dos aspectos mais inovadores do projeto é o incentivo à autonomia financeira das mulheres atendidas. A iniciativa oferece orientações sobre qualificação profissional e possibilidades de empreendedorismo, contribuindo para que possam romper o ciclo de dependência econômica do agressor.
"Quando uma mulher sofre violência, não é apenas ela que é atingida. A estrutura familiar é afetada e, principalmente, os filhos. Esse sofrimento chega à escola, interfere na rotina e pode resultar em evasão escolar. Foi a partir dessa compreensão que começamos a refletir", explica Ingridy Silva, que atualmente atua na escola como agente da Busca Ativa.
Base técnica e transformação social
Kauã Silva, que hoje cursa Ciência da Computação, destaca como a formação técnica recebida na escola foi fundamental para o desenvolvimento do aplicativo. "Eu cursei Desenvolvimento de Sistemas na escola e foi a partir desse curso que consegui estruturar o aplicativo. A base técnica que recebi foi essencial para transformar a ideia em algo concreto e funcional. Acredito no poder da tecnologia como ferramenta de transformação social", afirma o estudante.
Empreendedorismo como caminho para a liberdade
A professora Eligivania Macedo ressalta a conexão do projeto com a cultura de empreendedorismo já desenvolvida na escola. "A proposta do projeto está diretamente ligada ao trabalho que já desenvolvemos na escola com foco no empreendedorismo. Como estimulamos fortemente essa cultura, entendemos que promover autonomia financeira para essas mulheres é uma estratégia concreta para ajudá-las a romper o ciclo da violência", explica.
"Quando elas conquistam independência econômica, ampliam suas possibilidades de escolha e passam a ter mais condições de sair daquele contexto e reconstruir suas vidas com mais segurança e dignidade", completa a educadora.
O Projeto Vivas representa um exemplo notável de como a educação pública, quando combinada com inovação tecnológica e compromisso social, pode gerar soluções transformadoras para problemas complexos da sociedade brasileira.
