Projeto 'Somos Marias' acolhe vítimas de violência doméstica em Peruíbe, SP
Cada vez mais frequente nos noticiários de todo o país, a violência contra a mulher costuma atravessar gerações de famílias em silêncio, já que o agressor está dentro de casa em diversas ocasiões. Em Peruíbe, no litoral de São Paulo, o projeto 'Somos Marias' surgiu para romper esse ciclo perverso, oferecendo acolhimento, orientação e alternativas concretas para mulheres que vivem situações de violência, seus filhos e até os próprios agressores.
Iniciativa ampla e premiada
A iniciativa parte do princípio fundamental de que a violência não se limita ao momento da denúncia e, por isso, precisa ser enfrentada de forma ampla e multidisciplinar. Em março, mês dedicado às mulheres, a juíza Daniélle Camara Takahashi Cosentino Grandinétti revelou detalhes do projeto que idealizou em 2019 e que já atendeu mais de quatro mil mulheres, além de conquistar duas premiações do sistema de Justiça brasileiro, incluindo o prestigiado Prêmio Innovare, considerado o 'Oscar da Justiça' nacional.
De acordo com a magistrada, o projeto oferece atendimento integral às vítimas de violência doméstica, com suporte psicológico, assistencial e jurídico especializado. Uma das iniciativas mais importantes é uma oficina de costura para que as mulheres consigam alcançar autonomia financeira e rompam definitivamente o ciclo da violência, já que a maior parte delas vive em situação de vulnerabilidade social extrema.
Atendimento familiar completo
Para alcançar toda a família das vítimas, o Somos Marias ainda conta com um braço destinado especificamente à formação de grupos reflexivos para autores de violência doméstica: o 'João de Barro'. "Nossa ideia é blindar todo aquele núcleo familiar que está em situação de violência doméstica para que a violência dos pais não passe para a próxima geração, não passe para os filhos", afirmou a juíza com convicção. "A gente sabe que violência doméstica tem essa peculiaridade de ser transgeracional".
O projeto, que começou modestamente com uma sala para acolher vítimas dentro do Fórum local, foi expandido significativamente para a Casa das Marias, construída com uma arquitetura acolhedora e humanizada. Em breve, deve ser ainda mais ampliado com a criação do Centro de Enfrentamento à Violência Doméstica do Somos Marias, que vai unificar diversos serviços essenciais, incluindo da Delegacia da Defesa da Mulher (DDM) e do Conselho Tutelar municipal.
Origem marcante do projeto
A juíza Daniélle revelou que a semente do projeto nasceu de um episódio profundamente marcante em sua carreira. "Eu estava no fórum, ia começar uma audiência de violência doméstica e o agressor, o réu dessa audiência, agrediu a mulher no corredor", relatou emocionada. "Essa mulher era vítima da audiência, ele entendeu por bem repetir o ato da violência dentro do fórum e aquilo mexeu bastante comigo, mudou bastante a minha perspectiva enquanto magistrada".
Ela continuou: "Dentro do fórum não se furta, não se rouba uma bolsa, não se quebra uma porta, não se puxa o celular da mão de alguém, mas se agride uma mulher. Entendi que a violência doméstica tem essa perversidade particular. Ela não desafia o patrimônio, ela desafia o corpo. Não afronta as coisas, afronta a carne, a carne de mulheres, de meninas e mulheres".
Simbolismo do nome 'Somos Marias'
O nome do projeto carrega um simbolismo forte e intencional. "Maria sempre foi um nome muito forte para mim", explicou a juíza. "Maria é o nome mais registrado no Brasil. Acredito que 6% da população das mulheres do Brasil se chama Maria, e isso é bastante significante".
"A ideia era dar universalidade e prestigiar as nossas Marias históricas: a Maria Felipa, a Maria Quitéria, Maria da Penha, Maria Bethânia", enumerou. "São tantas Marias históricas, são tantas Marias que nos fortalecem e a minha ideia era que todos aqui, incluindo homens e mulheres, se sentissem Marias, sentissem um pouco a dor de uma Maria que está em violência para fazer alguma coisa, para que desse, junto comigo, um grito de basta de violência".
Transformação pessoal e profissional
O projeto transformou completamente a perspectiva da juíza sobre sua própria profissão. "O Somos Marias mudou completamente a minha perspectiva enquanto juíza", confessou. "Foi a partir do Somos Marias que passei a entender com total convicção que o trabalho ordinário de um juiz não resolve conflito. A nossa decisão, aquela que a gente toma 'na caneta', pode até colocar fim ao processo, mas não termina com uma dor, com uma ferida".
"Para mim não fazia sentido", continuou. "Não fazia sentido eu apenas encerrar, decidir, sentenciar e não efetivamente entregar a justiça. Eu precisava fazer algo mais para que eu pudesse me sentir efetivamente realizada na profissão que escolhi".
Grupo reflexivo para agressores
O 'João de Barro', braço do projeto destinado aos agressores, funciona com participação obrigatória através de duas vias principais: medida protetiva ou como parte da sentença judicial. "Tem que cumprir, tem que frequentar o grupo, a gente é bastante rígido nesse sentido", afirmou a juíza. "Se não frequentar, ele está descumprindo uma ordem judicial e isso pode caracterizar um novo delito".
"Geralmente a gente pergunta no primeiro dia do encontro: 'Quem aqui acha que não deveria estar aqui?'", revelou. "Todos eles levantam a mão, se sentem injustiçados e começa aquela falação que a gente sempre ouve: 'Ela que é louca, ela quer me prejudicar, ela é ciumenta'. Aquela série de impropérios que a gente sempre ouve".
"Mas no final do curso", completou com esperança, "cerca de 90% dos homens que participam desse grupo entendem que foi bastante importante, que sentiram uma real transformação. É um trabalho que a gente tem, no sentido de minimizar, ao máximo, que esse homem volte a agredir uma mulher".
Responsabilidade coletiva e esperança
Após anos de atuação dedicada à temática, a juíza Daniélle enxerga avanços, mas também desafios significativos. "Acho que a gente está evoluindo, a gente está falando bastante sobre o assunto, as pessoas estão se preocupando, a mídia está noticiando", avaliou.
"Mas a gente observa com muita clareza um aumento da perversidade da violência", alertou. "A violência está sendo muito mais cruel, a forma com que ela é dirigida para a mulher. A gente vê homem arrastando mulher com o carro por mais de um quilômetro, mais de 60 socos numa mulher no elevador, estupros coletivos".
Mesmo diante desse cenário desafiador, a magistrada mantém sua esperança intacta. "Eu gosto de ter esse pensamento positivo, eu acredito que nós vamos evoluir", afirmou com convicção. "Eu acredito que um dia não vai mais ser necessário a gente ter uma lei de proteção às mulheres, que um dia as mulheres vão poder se sentir seguras nas ruas, mas principalmente dentro das suas casas".
O projeto Somos Marias representa assim não apenas uma iniciativa concreta de acolhimento, mas um símbolo poderoso de resistência, transformação e esperança na luta contra a violência doméstica que ainda assombra tantas famílias brasileiras.



