Datafolha: 68 milhões de brasileiros convivem com crime organizado perto de casa
68 milhões convivem com crime organizado, aponta Datafolha

Uma pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mediu a preocupação dos brasileiros com a violência e o crime organizado. Quase 70 milhões de pessoas afirmaram perceber a atuação de facções criminosas ou milícias perto de suas residências, em seus próprios bairros.

Motoristas de aplicativo e a rotina de risco

O motorista de carro por aplicativo Denis Moura, do Rio de Janeiro, mapeia as ruas onde pode ou não trabalhar. Ele criou um sistema próprio: ruas em vermelho exigem atenção redobrada, as azuis são seguras, e algumas ele evita completamente. "Dependendo do lugar, acende a luz do carro, baixa o farol, para, pede permissão para entrar. É bem complicado", relata. Denis faz parte dos 68 milhões de brasileiros que convivem com o crime organizado próximo de casa.

Influência dos criminosos nos bairros

A pesquisa mostrou que a situação é mais grave nas capitais e regiões metropolitanas. Para um terço dos entrevistados, os criminosos "influenciam muito" as decisões e regras de convivência no bairro. "As barreiras, a intervenção dos bandidos, da milícia, do tráfico, estão de uma maneira que não conseguimos calcular os locais. Eles estão invadindo os bairros", conta Denis. Em Jacarepaguá, bairro com cerca de 650 mil habitantes, a disputa territorial entre milícia e tráfico é intensa.

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Principais medos da população

O estudo elenca os principais receios de quem vive sob domínio de facções: ficar no meio de um confronto armado, ter familiar envolvido com o tráfico, e sofrer represálias por denunciar crimes.

Um dono de posto de combustível, que pediu anonimato por medo, afirma ser obrigado a pagar taxas semanais para continuar funcionando. "A abordagem deles se alterna: às vezes é milícia, às vezes é tráfico. Eles intimidam os gerentes. Somos obrigados a pagar para não acontecer nada com o estabelecimento e com os funcionários", relata.

Restrições ao direito de ir e vir

A pesquisa também retrata o medo da população e as limitações no direito de ir e vir. Quase 75% dos brasileiros evitam frequentar certos lugares e muitos deixam de circular em horários considerados perigosos. O crime organizado limita o direito de escolha: moradores são obrigados a contratar serviços indicados por criminosos e a comprar marcas determinadas por eles.

No Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, integrantes do Comando Vermelho monitoram em tempo real as ruas de Cabedelo, na Paraíba, com câmeras de vigilância. Como mostrou o Fantástico, traficantes controlam o crime e a rotina dos moradores a partir do Rio.

Expansão do crime organizado

Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca: "Com a expansão do Comando Vermelho e PCC, esse modelo profissional de crime está se difundindo para cidades do interior e regiões afastadas. A criminalidade usa armamento longo, achaca a população e impõe regras de convivência".

Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum, defende: "Precisamos recuperar territórios, garantir que o poder público regule as atividades. Falar de território não é só comunidades e favelas, é falar de cidadania, de garantir o ir e vir e pensar a segurança pública de forma articulada".

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