A empresária Maria Helena de Sousa Netto Costa, presa em Goiânia pela Polícia Federal sob suspeita de liderar um esquema de migração ilegal para os Estados Unidos, afirmou em áudios ter experiência em libertar imigrantes ilegais detidos no país. Ela é apontada como chefe de um grupo que atuou entre 2018 e 2023, conforme estimativa policial.
Áudios revelam atuação da suspeita
Em um dos áudios obtidos com exclusividade pela TV Anhanguera, Maria Helena diz: “Os meninos foram presos. Eu consigo tirá-los. Tiro, sempre tiro... todos que ficam eu tiro. Eu tiro para depois receber, né? Eu quero saber se você quer que eu tiro... que eu já providencio isso”. A gravação refere-se à prisão de Francisco Firmino de Souza Filho, um homem de Rondônia que contratou os serviços de migração ilegal.
Durante a travessia, a empresária chegou a encaminhar mensagens do próprio coiote para a esposa de Francisco. Nelas, o coiote avisa que estão enfrentando grande perigo e que não poderiam seguir o percurso devido à presença de muita polícia na fronteira.
Pagamento e provas
Segundo as investigações, Francisco pagou US$ 22 mil para entrar ilegalmente nos Estados Unidos em 2018. Em depoimento à polícia de Colorado Oeste, em Roraima, a esposa dele, Rosemilda Maria Marquinis, disse que o marido pretendia conseguir emprego nos EUA. A TV Anhanguera também teve acesso a um comprovante de pagamento que liga Francisco a Maria Helena, referente a uma transferência bancária feita por ele em 25 de março de 2019, já em Harrison, Arkansas. O documento traz o endereço da empresária no Setor Jaó, em Goiânia.
Em outra conversa, Maria Helena dá notícias sobre Francisco à esposa: “Rosi, eu... eu acho que eles não atravessaram ontem não, porque ele não falou nada. Eu acho que ele tá esperando mais gente, só pode ser. Porque atravessar só dois... lá só tem os dois. Mas... a gente não pode apertar eles, Rosi... não adianta. Se apertar ele joga eles na imigração, é pior ainda”. Em seguida, garante que o caminho escolhido pelo grupo era o mais seguro: “É um caminho que você anda, mas chega. Eu sempre falo 'quando eu ponho o meu dinheiro na frente, o caminho que eu ponho é esse'. Porque esse caminho chega 97% e no outro chega 70%”.
Organização criminosa
O inquérito, já encaminhado ao Ministério Público Federal, aponta que Maria Helena mantinha contato direto com os “coiotes”, responsáveis por levar imigrantes ilegalmente pela fronteira do México para os EUA. Além da contratação, ela efetivava a compra de passagens aéreas e viabilizava a contratação de advogados em caso de detenção. Segundo a PF, ela chefiava um dos cinco grupos criminosos especializados em enviar brasileiros ilegalmente para os Estados Unidos.
Maria Helena entrou na mira da Polícia Federal em 2022, quando seu nome foi citado por brasileiros abordados no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Ela e outras três pessoas presas em Goiânia são suspeitas de promoção de migração ilegal, lavagem de dinheiro e organização criminosa. As penas podem chegar a 23 anos de prisão.
Movimentação financeira
As quebras de sigilo telefônico e bancário mostraram que, de 2018 a 2023, as cinco quadrilhas movimentaram R$ 240 milhões. Desse total, R$ 45 milhões estavam sob controle da organização de Maria Helena. No Amapá, outros dois chefes não encontrados foram incluídos na lista da Interpol. Cada brasileiro desembolsava, em média, US$ 20 mil para entrar ilegalmente nos EUA. Em cinco anos, 477 pessoas foram enviadas, mas o número pode ser maior.
Como agiam os grupos
Segundo a PF, os grupos atuavam de forma estruturada, organizando toda a logística da viagem, desde a saída do Brasil até a passagem por México e Panamá, até a chegada aos EUA. Integrantes em outros estados e no exterior eram responsáveis por suporte logístico, recepção de migrantes e intermediação financeira. As investigações também apontaram uso de empresas de fachada, laranjas e esquemas de lavagem de dinheiro.
Defesa de Maria Helena
A defesa da empresária afirmou que ela recebeu com surpresa as medidas cautelares e aguarda acesso aos autos. Registra a absoluta desnecessidade da prisão preventiva, alegando que não há risco à ordem pública ou à instrução criminal. As providências para o restabelecimento da liberdade já estão em curso.
Nota do governador
Maria Helena é sogra do governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB). Em nota, ele afirmou que os fatos são investigados desde meados dos anos 2000 e não têm relação com ele, sua esposa ou o Governo de Goiás.



