Baiano ressignifica trauma e se torna liderança contra trabalho escravo
Baiano vira liderança contra trabalho análogo à escravidão

Erisvaldo Alves Barbosa, de 34 anos, natural de Xique-Xique, no oeste da Bahia, transformou sua experiência traumática em propósito. Resgatado de condições análogas à escravidão em uma granja no Distrito Federal, ele agora integra um grupo de 13 pessoas selecionadas para um curso de formação de lideranças no combate a esse crime, oferecido pelo Instituto Trabalho Decente (ITD), em Salvador.

Trauma e superação

Erisvaldo mudou-se para o DF em 2024 em busca de melhores oportunidades, mas encontrou uma realidade cruel: moradia precária e tarefas insalubres, como limpeza de dejetos e animais mortos. Pouco tempo depois, uma operação do Ministério do Trabalho resgatou 12 trabalhadores do local. Mesmo traumatizado, Erisvaldo foi selecionado para o curso, que há três meses o ajuda a superar os traumas e desenvolver habilidades para se reestabelecer na sociedade.

"A gente chegou sem nenhuma perspectiva, todo mundo ali, digamos que, sem rumo. O projeto em si visa nos preparar para nos devolver à sociedade, mas devolver a gente curado", relata.

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Formação e empoderamento

Realizado pela internet, o curso não só amplia perspectivas de futuro, mas também ressignifica a relação dos participantes com o trabalho. "Saber que a gente tem uma importância aqui na Terra, fazendo com que os nossos direitos sejam garantidos, que é uma das coisas que a gente não sabia", afirma Erisvaldo.

Entre os dias 18 e 21 de abril, o grupo participou de um encontro presencial em Salvador, com palestras e aulas sobre direitos humanos, estrutura do Estado, trabalho infantil, tráfico de pessoas e direitos trabalhistas. Além da capacitação, os trabalhadores recebem acompanhamento psicológico e ajuda de custo para projetos pessoais, como cursos profissionalizantes. O curso dura 15 meses, com assessoramento técnico e psicossocial.

"A formação tenta te capacitar para que você venha para a sociedade, para o mercado de trabalho, qualificado, preparado. Até para que você não seja submetido a trabalhos desumanos, porque você não tem uma certa experiência", explica Erisvaldo.

Contexto nacional

A "escravidão moderna" é uma realidade no Brasil: em 2025, mais de 2,7 mil pessoas foram resgatadas de condições análogas à escravidão. Para Patrícia Lima, advogada e presidente do ITD, o suporte e o reempoderamento desses trabalhadores são essenciais. O projeto foi idealizado a partir da percepção dos próprios resgatados de que precisavam ocupar espaços de discussão sobre o tema.

"O projeto nasce muito dessa perspectiva de as pessoas que passaram por essa experiência falarem, pautarem essa temática, liderarem as discussões nas suas comunidades e trabalharem na prevenção. A gente os chama de 'líderes especialistas'", diz.

Planos futuros

Erisvaldo destaca a importância de criar uma rede de informação para os trabalhadores. Com planos de concluir o Ensino Médio e buscar formação técnica, ele acredita que a educação é fundamental para evitar novas vítimas. "Às vezes a gente acha que é encarar o trabalho cedo, pegar no pesado que vai te dar uma condição de vida digna e não é. Não é o muito se esforçar no pesado que vai te levar para frente. O estudo é essencial na vida de qualquer ser humano", defende.

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