Uma delegada recém-empossada na Polícia Civil de São Paulo tornou-se vítima de uma onda de ataques machistas e misóginos na internet. O caso ocorreu após ela compartilhar a felicidade de assumir o novo cargo, transformando um momento de conquista profissional em um episódio de violência virtual.
Da comemoração aos ataques coordenados
A delegada Raphaela Natali Cardoso, de 31 anos, acabara de assinar seu termo de posse, concluindo a formação na Academia de Polícia Civil do estado. Na quinta-feira, 8 de fevereiro, ela publicou uma foto celebrando a importante conquista profissional. No entanto, a reação de uma parcela dos usuários das redes sociais foi de extrema hostilidade.
Imediatamente após a publicação, a profissional passou a ser alvo de uma série de comentários ofensivos e coordenados. Conforme relatado no boletim de ocorrência, os ataques atingiram sua honra, dignidade, capacidade profissional e, principalmente, sua condição de mulher. Os perfis responsáveis pelas ofensas não foram identificados.
O teor das ofensas e o enquadramento legal
As mensagens de ódio incluíram discriminação de gênero e ataques de cunho sexual. Entre os exemplos registrados, havia frases que defendiam abertamente a exclusão de mulheres de cargos no Judiciário e na segurança pública.
Um dos comentários afirmava: “delegado, juiz e qualquer cargo de justiça: mulher deveria ser proibido”. Outro usuário escreveu que “quando um povo é liderado por mulheres, é sinal de punição divina”. Havia ainda uma série de ofensas pessoais e com teor sexual direcionadas à delegada.
O boletim de ocorrência foi registrado com base na Lei 7.716/89, que trata dos crimes resultantes de preconceito ou discriminação. O caso também foi enquadrado como injúria. A investigação foi aberta e encaminhada ao 51º Distrito Policial, localizado no Rio Pequeno, na Zona Oeste da capital paulista.
Investigação em andamento e busca por responsáveis
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) foi procurada para informar se já há identificação dos autores dos ataques. Até o momento da última atualização desta reportagem, não houve resposta oficial sobre avanços nas investigações.
O caso evidencia um desafio recorrente: a violência digital contra mulheres em posições de autoridade. A delegada Raphaela, que deveria estar focada em seu novo papel de combate ao crime, viu-se obrigada a recorrer à própria instituição para se proteger de ataques que questionam seu direito fundamental de ocupar o cargo.
O episódio serve como um alerta sobre o ambiente tóxico que muitas profissionais enfrentam ao assumirem cargos tradicionalmente masculinos, reforçando a necessidade de combater o discurso de ódio e a discriminação de gênero também no espaço virtual.