Um cenário de graves violações de direitos humanos se aprofunda no Irã, com a revelação de um caso chocante de abuso sexual contra um adolescente detido durante os protestos que sacodem o país. A organização não-governamental Kurdistan Human Rights Network (KHRN) divulgou, nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, a denúncia de que um jovem de 16 anos foi vítima de agressão sexual por forças de segurança enquanto estava sob custódia.
Detalhes da denúncia de violência
De acordo com a KHRN, sediada na França, o caso ocorreu na cidade de Kermanshah, localizada no oeste do Irã. A entidade obteve relatos de duas pessoas que estiveram detidas, sendo uma delas o adolescente de 16 anos. Ambas afirmaram ter sido submetidas a agressões físicas e abuso sexual durante o período em que estavam sob a guarda das forças de segurança.
Os testemunhos colhidos pela organização descrevem que, durante o transporte em viaturas policiais, os detidos foram espancados com cassetetes. Além disso, sofreram pressão com um bastão na região anal, por cima das roupas. A KHRN mantém contato com fontes próximas à família do adolescente, mas enfrenta dificuldades devido ao bloqueio de comunicações imposto pelo governo iraniano, o que impede informações precisas sobre seu estado de saúde e localização atual.
Contexto de repressão generalizada
Esta denúncia específica se insere em um padrão alarmante e recorrente de violência documentado por diversas entidades internacionais. A onda de protestos no Irã, que começou no final de dezembro, surgiu inicialmente em meio a uma crise econômica agravada, caracterizada por inflação alta, desemprego e desvalorização da moeda local. Rapidamente, os atos se espalharam e passaram a incluir críticas diretas ao governo e à atuação violenta das forças de segurança.
Os números da repressão são devastadores. Estima-se que mais de 20 mil manifestantes tenham sido detidos desde o início dos protestos. Em relação às mortes, os dados são igualmente chocantes. A agência de notícias Human Rights Activists News Agency (HRANA), dos Estados Unidos, indica um saldo de pelo menos 3.766 pessoas mortas na repressão, com outros 8.949 casos de óbito sob investigação. Fontes ouvidas pela Reuters chegaram a mencionar que o número de mortos já ultrapassou 5.000.
Outras organizações reforçam alerta
O Centro Abdorrahman Boroumand para os Direitos Humanos no Irã, com base nos Estados Unidos, emitiu um alerta sobre a piora da situação. A organização documentou a transferência de pelo menos 549 manifestantes, incluindo 51 mulheres, para a prisão central de Yazd, expressando "extrema preocupação" com a integridade física desses detidos.
Roya Boroumand, diretora executiva do centro, afirmou que, com a redução dos protestos de rua, as prisões arbitrárias aumentaram, elevando também o risco de tortura para quem está detido. Ela destacou que, ao longo das últimas décadas, a entidade registrou inúmeros casos de morte sob custódia e episódios graves de tortura.
Relatos de violência sexual e tortura em centros de detenção não são novidade no contexto iraniano. Durante manifestações anteriores, em 2022, ex-detidos já haviam descrito casos de estupro, espancamentos e tortura. A atual onda de protestos continua a gerar novas vítimas. A ONG curda Hengaw, por exemplo, informou sobre a morte de uma mulher grávida, Sholeh Sotoudeh, atingida por tiros de forças de segurança no noroeste do país, e sobre o falecimento de Soran Feyzizadeh, de 40 anos, que teria morrido sob custódia após ser detido no início de janeiro.
Um porta-voz da KHRN acrescentou que a organização investiga ao menos dois novos relatos de mortes ocorridas enquanto os detidos estavam sob custódia das forças de segurança iranianas, reforçando o quadro de violações sistemáticas de direitos humanos.